A Bolívia implementou uma reforma significativa em seu mercado de exportações privadas de ouro, com o objetivo principal de aumentar a entrada de dólares no sistema financeiro nacional. A nova regulamentação, anunciada pelo porta-voz do governo José Luis Gálvez, encerra um sistema de três anos que exigia a supervisão do Banco Central da Bolívia (BCB) para a venda de ouro no exterior. Sob o antigo regime, exportadores precisavam de certificados do BCB, que por sua vez adquiria a produção local, retinha parte para suas reservas e autorizava a venda do restante. O pagamento aos exportadores era feito em bolivianos, a uma taxa de câmbio considerada desfavorável, enquanto o BCB acumulava o metal precioso para trocá-lo por dólares quando necessário, financiando importações, como as de combustíveis subsidiados.
A principal mudança é que os exportadores deverão agora comprovar ao Serviço Nacional de Registro e Controle da Comercialização de Minerais e Metais (Senarecom) que, no mínimo, 80% de suas receitas de exportação são depositadas em bancos bolivianos. O Ministério da Economia e Finanças Públicas receberá periodicamente dados do Senarecom sobre essas exportações e os movimentos bancários correspondentes, reservando-se o direito de ajustar o percentual mínimo a ser depositado. "O objetivo é aumentar a entrada de divisas no sistema financeiro nacional, reforçar a disponibilidade de dólares e melhorar a supervisão das exportações de ouro. O ouro que sai da Bolívia deve gerar dólares para a Bolívia", explicou Gálvez.
Contexto e Críticas ao Sistema Anterior
O sistema anterior, implementado em 2023 pelo ex-presidente Luis Arce, enfrentou críticas consideráveis. Uma das principais objeções era que ele criava um incentivo para o contrabando de ouro. Mineros preferiam receber em dólares no mercado paralelo para evitar a taxa de câmbio desfavorável e a exigência de converter grande parte de seus ganhos em bolivianos. Essa preferência por transações em moeda estrangeira fora dos canais oficiais contribuiu para uma queda acentuada nas exportações de ouro registradas pelo governo. Dados oficiais indicam que as exportações caíram de mais de US$ 3 bilhões em 2022 para cerca de US$ 1,1 bilhão em 2025, um reflexo direto da ineficácia do sistema em atrair divisas para o país e da possível fuga de ouro não declarado.
Mecanismos da Nova Reforma
A nova abordagem busca contornar as falhas do sistema anterior ao descentralizar a supervisão e focar na entrada direta de dólares no sistema bancário. Ao exigir que 80% da receita permaneça no país, a Bolívia espera não apenas aumentar suas reservas de moeda estrangeira, mas também melhorar a rastreabilidade das transações de ouro. A comunicação direta entre o Senarecom e o Ministério da Economia visa garantir maior transparência e controle sobre o fluxo de capitais. A flexibilidade para ajustar o percentual mínimo de depósito também sugere uma tentativa de adaptação às condições de mercado, embora a especificação de "mínimo 80%" indique uma política firme de retenção de divisas.
Implicações para o Sistema Financeiro e o Setor de Mineração
A reforma tem implicações diretas para o sistema financeiro boliviano, que pode ver um aumento substancial em seus depósitos em dólares. Isso pode, por sua vez, aliviar a pressão sobre a disponibilidade de moeda estrangeira para importações e outros pagamentos internacionais. Para o setor de mineração, a mudança pode representar um desafio maior em termos de conformidade e transparência, mas também uma oportunidade de estabilizar o mercado e potencialmente obter melhores condições de financiamento no longo prazo, caso o aumento na disponibilidade de dólares fortaleça a economia boliviana como um todo. A eficácia da reforma dependerá da capacidade do governo em fiscalizar e garantir o cumprimento das novas regras, bem como da resposta dos exportadores e do mercado internacional.
Perguntas em Aberto e o Futuro do Ouro Boliviano
Apesar da reforma, permanecem questões importantes sobre a sustentabilidade a longo prazo e o impacto real na economia. Será que o novo sistema conseguirá conter o contrabando de forma eficaz? Como os exportadores reagirão à exigência de depositar a maior parte de suas receitas em bancos bolivianos, especialmente se as taxas de câmbio continuarem a ser um ponto de discórdia? A Bolívia conseguirá, de fato, reverter a queda nas exportações de ouro e fortalecer suas reservas de dólares a ponto de impactar positivamente outros setores da economia, como o financiamento de combustíveis? A observação atenta dos próximos relatórios do Senarecom e do BCB será crucial para avaliar o sucesso desta nova política.
A Bolívia busca, com esta medida, um equilíbrio delicado entre a necessidade de atrair dólares para sua economia e a manutenção de um setor de exportação de ouro dinâmico e competitivo. A reforma representa um passo audacioso, cujos resultados serão acompanhados de perto por analistas e pelo mercado financeiro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España




