O Bradesco se prepara para receber um aporte de até R$ 10 bilhões em seu caixa, um movimento financeiro que, segundo o diretor financeiro Cassiano Scarpelli, não se traduzirá em uma corrida por participação de mercado ou aceleração indiscriminada da concessão de crédito. A diretriz clara é de um crescimento sustentável, que preserve a rentabilidade e evite a busca por resultados efêmeros a curto prazo em detrimento da saúde financeira futura do banco. “Não vamos sair acelerando apenas para ganhar mercado”, afirmou Scarpelli, em entrevista ao Seu Dinheiro. A operação de aumento de capital, com conclusão prevista para o fim de setembro, já foi aprovada pelas controladoras, e para o CFO, o principal valor reside na demonstração de confiança dos acionistas no plano de transformação em curso na instituição.

Um Reforço Calculado

Apesar de representativo, o aporte de R$ 10 bilhões não altera drasticamente a robusta estrutura de capital do Bradesco, que se aproxima de R$ 190 bilhões. Contudo, o novo capital adiciona uma camada de pressão por maior rentabilidade, exigindo que os negócios do banco gerem retornos que superem o custo desse capital. Scarpelli explicou que o novo capital, ao entrar no ciclo comercial, tende a impulsionar a rentabilidade acima do custo, mas o desafio é justamente elevar o Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE) para que ele supere o próprio aumento de capital. Assim, a estratégia se concentra em manter o ritmo de investimentos em tecnologia, aprimorar a eficiência operacional e posicionar o banco para capitalizar uma eventual melhora do cenário econômico, em vez de simplesmente expandir a carteira de crédito.

Tecnologia e IA como Motores de Transformação

A tecnologia é um dos pilares centrais da estratégia de transformação do Bradesco. O banco está desenvolvendo uma nova plataforma de mobile banking, com integração aprimorada à Bia, sua assistente virtual baseada em inteligência artificial. O lançamento desta nova plataforma está agendado para o final do ano. Atualmente, a Bia já processa cerca de 90% das demandas recebidas via chat online, sendo capaz não apenas de responder a solicitações, mas também de executar transações como Pix e pagamentos. O próximo passo ambicioso é evoluir a IA para que ela deixe de ser reativa e passe a antecipar as necessidades dos clientes, com o objetivo de transformá-la em um "gerente agêntico" capaz de identificar oportunidades e gerenciar processos de ponta a ponta, incluindo ofertas de crédito e investimentos. Paralelamente, o Bradesco está reconfigurando sua rede de agências físicas, direcionando clientes de menor renda para os canais digitais, com a meta de alcançar aproximadamente 40 milhões de clientes digitais entre outubro e novembro.

Foco em Alta Renda e Gestão de Riscos

Enquanto a base de clientes de menor renda é migrada para o digital, o Bradesco intensifica seus esforços para atrair e reter clientes de média e alta renda. O segmento Principal, voltado para clientes com renda superior a R$ 25 mil, projeta atingir entre 800 mil e 900 mil clientes até o final de 2026, dentro das expectativas iniciais. O crescimento atual tem sido impulsionado pela migração interna de clientes, mas o foco futuro é atrair clientes que atualmente operam com instituições concorrentes. O banco também planeja revitalizar o segmento Prime, que atende clientes com renda entre R$ 8 mil e R$ 25 mil, através de um atendimento personalizado, integração com o WhatsApp, maior uso da Bia, gamificação e ofertas de cartões diferenciados. A filosofia, segundo Scarpelli, é "trabalhar em cima do nosso fair share e da nossa capacidade de encantamento", sem buscar aquisições de mercado.

Navegando em Cenário Macroeconômico Desafiador

A expansão da carteira de crédito, embora ainda considerada, é pautada pela cautela, especialmente diante da persistência da inadimplência. O Bradesco tem refinado seus critérios de concessão e implementado modelos preditivos para identificar precocemente sinais de deterioração na carteira. As modalidades de crédito rural, pessoal e operações ligadas aos fundos garantidores (FGO e FGI) têm apresentado os maiores desafios. No cartão de crédito, a inadimplência entre clientes de baixa renda mostra melhora, mas a de média renda ainda pressiona as provisões para perdas com crédito (PDD). Scarpelli reconhece a pressão sobre a PDD, comum a todos os bancos, mas não antecipa uma deterioração catastrófica. A recuperação do Bradesco também está atrelada ao cenário macroeconômico, com juros reais próximos a 10% sendo um obstáculo significativo. O banco busca mitigar a dependência da receita de crédito, ampliando receitas de serviços, Cash Management e operações de tesouraria, como a recente abertura de uma mesa de energia. A estratégia final é estar preparado para um ambiente econômico favorável, mas com a capacidade de operar eficientemente mesmo em um cenário adverso.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times