O Brasil se consolidou como um dos principais alvos globais de ataques de negação de serviço distribuída (DDoS) no primeiro semestre de 2026. Segundo o Relatório Global de Inteligência de Ameaças DDoS da NETSCOUT, o país registrou 487.415 incidentes, um crescimento de 3,56% em comparação com os seis meses anteriores. Esse número, que se aproxima de meio milhão de ataques em apenas seis meses, reflete a crescente vulnerabilidade da infraestrutura digital brasileira diante de ameaças cibernéticas cada vez mais sofisticadas.
O levantamento, que monitorou mais de 9,1 milhões de ataques em 209 países, também destacou um aumento alarmante de 1.286% em ataques globais com capacidade superior a 1 Tbps ou 1 Gpps. Além disso, foi identificado o primeiro ataque IPv6 acima de 1 Tbps e um crescimento superior a 300% na necessidade de mitigação ativa de ameaças direcionadas a esse protocolo. Esses dados indicam uma escalada na potência e na complexidade dos ataques, exigindo novas abordagens em segurança.
Causas da Alta Incidência
Geraldo Guazzelli, diretor-geral da NETSCOUT no Brasil, atribui a elevada incidência de ataques no país a três fatores principais. Primeiramente, a dimensão da infraestrutura digital brasileira, que abrange desde serviços domésticos até operações críticas em hospitais e bancos, com grandes operadoras e provedores regionais atendendo milhões de acessos. Em segundo lugar, a expansão contínua dos serviços conectados, que ampliam a superfície de ataque. Por fim, a relevância econômica e geopolítica do mercado nacional, que o torna um alvo atrativo para grupos criminosos. O Brasil figura frequentemente entre o quarto e o quinto lugar nos levantamentos globais da NETSCOUT, tanto como alvo quanto como origem de ofensivas.
O setor de logística, por exemplo, tornou-se um alvo relevante, dada sua importância para o funcionamento da economia brasileira. Interrupções nesse segmento podem comprometer cadeias de abastecimento e operações de empresas de diversos setores. A concentração de ataques em infraestruturas de telecomunicações, com empresas de telefonia móvel liderando o ranking no Brasil, seguida por provedores de computação e hospedagem, reforça a tese de que a conectividade é o principal vetor de ataque e, ao mesmo tempo, de defesa.
Ataques como Cortina de Fumaça e a Necessidade de Visão Holística
A duração média dos ataques registrados no Brasil foi de 59,31 minutos, com vetores comuns como TCP ACK, DNS Amplification e TCP SYN. Guazzelli alerta que, em muitos casos, as organizações não percebem que já estão sob ataque. Um dos usos mais perigosos dos ataques DDoS é como cortina de fumaça para outras operações criminosas. Enquanto as equipes de segurança se concentram em restabelecer os serviços, invasores podem aproveitar a distração para extrair informações, comprometer servidores ou criptografar dados, com o objetivo de exigir resgate posteriormente.
Diante dessa evolução, Guazzelli defende que a proteção contra DDoS transcenda a responsabilidade exclusiva das equipes técnicas. A estratégia de segurança deve envolver diversas áreas da companhia, incluindo segurança da informação, infraestrutura, operações, compliance, gestão de riscos e finanças. O CISO deve liderar esse esforço, mas o CFO, por exemplo, precisa participar das discussões para avaliar os investimentos em segurança sob a ótica dos riscos financeiros, legais e de reputação associados à indisponibilidade dos serviços. A montagem de um time multicultural e com diferentes competências é essencial para desenhar um plano de segurança eficaz.
Implicações e Perguntas em Aberto
A escalada dos ataques DDoS e sua utilização como ferramenta para atividades criminosas mais complexas levantam sérias implicações para a segurança cibernética nacional. A dependência crescente de serviços digitais em todos os setores da economia brasileira torna a resiliência da infraestrutura de TI uma prioridade estratégica. A falta de percepção sobre a ocorrência de ataques e o uso de táticas de distração por parte dos criminosos exigem um aprimoramento contínuo nas ferramentas de detecção e resposta.
Questões importantes permanecem em aberto: como o Brasil pode fortalecer sua infraestrutura digital para mitigar ataques de grande escala? Quais políticas públicas e regulamentações são necessárias para incentivar investimentos em segurança cibernética e promover a colaboração entre o setor público e privado? A capacidade de resposta e adaptação das empresas brasileiras frente a ameaças cada vez mais sofisticadas será crucial para garantir a continuidade dos negócios e a proteção de dados sensíveis.
A crescente sofisticação dos ataques DDoS e sua utilização como distração para crimes cibernéticos mais graves sublinham a necessidade urgente de uma abordagem de segurança mais integrada e proativa. A proteção efetiva da infraestrutura digital brasileira exige um esforço conjunto, que vá além das equipes técnicas e envolva a alta gestão das organizações, com investimentos estratégicos e uma cultura de segurança disseminada em todos os níveis.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





