Empresas brasileiras do setor de energia atingiram um patamar de maturidade digital que se equipara aos principais mercados globais, segundo avaliação de Thiago Ribeiro, head global para indústrias de Energia, Química e Infraestrutura da Siemens. Em entrevista recente, o executivo destacou que a combinação de excelência acadêmica em engenharia e a necessidade de modernizar ativos envelhecidos impulsionou a adoção de tecnologias digitais no país.

A tese central é que o Brasil deixou de ser um seguidor para se tornar uma referência, especialmente em exploração de recursos naturais. A análise sugere que a digitalização não é apenas uma escolha estratégica de eficiência, mas uma necessidade de sobrevivência para ativos que, em muitos casos, operam há cinco décadas e exigem intervenções precisas para manter a viabilidade econômica e as metas de descarbonização.

O papel da tecnologia na gestão de ativos

A modernização do setor energético brasileiro passa pela implementação de gêmeos digitais e repositórios de dados que permitem a reengenharia de peças críticas. Um exemplo citado é a colaboração com a Petrobras, onde a criação de um "armazém digital" permite não apenas o registro das peças, mas a análise de falhas para o redesenvolvimento de componentes mais robustos e sustentáveis.

Essa abordagem de engenharia reversa apoiada por dados permite a substituição de materiais tradicionais por alternativas de menor pegada de carbono, como plásticos verdes. A leitura aqui é que a tecnologia atua como um facilitador para as métricas de ESG, transformando a manutenção preventiva em uma vantagem competitiva de sustentabilidade.

O conservadorismo como barreira operacional

Apesar da maturidade técnica, o setor ainda enfrenta um dilema cultural. Pesquisas de mercado indicam que, embora empresas utilizem largamente computação em nuvem e análise de dados, a adoção de inovações disruptivas permanece contida. O alto risco operacional, inerente a atividades como a extração de petróleo, impõe uma barreira natural à experimentação.

O movimento sugere que a pressão por resultados imediatos e a aversão ao risco limitam as apostas mais ousadas. O desafio para a liderança das empresas é, portanto, criar uma cultura organizacional que suporte a inovação transformacional sem comprometer a segurança das operações críticas.

O potencial estratégico dos minerais críticos

O Brasil possui uma vantagem comparativa na mineração, com tecnologia reconhecida internacionalmente. Contudo, o gargalo reside no processamento de minerais críticos, como as terras raras, onde a China mantém domínio global. A transição da pesquisa laboratorial para a escala industrial é o próximo passo fundamental.

Vale notar que a soberania nacional está no centro do debate. Enquanto o marco legal tramita no Senado, a falta de diretrizes claras sobre a participação governamental e o licenciamento de empresas de exploração cria uma zona de incerteza que freia investimentos de longo prazo em infraestrutura de processamento.

Perspectivas para a próxima década

A questão que permanece é como o país equilibrará a necessidade de soberania tecnológica com a atração de capital privado. Sem uma definição clara do marco regulatório, o avanço tecnológico pode ficar restrito a nichos de alta eficiência, sem alcançar a escala necessária para transformar o Brasil em um player global de processamento.

O cenário exige monitoramento constante sobre como as políticas de minerais críticos serão desenhadas. Se a transição do laboratório para a operação for bem-sucedida, o país terá condições de liderar a cadeia de suprimentos de energias renováveis e eletrônicos de ponta.

O avanço da maturidade digital brasileira no setor de energia demonstra um ecossistema que superou a fase de aprendizado técnico. O sucesso futuro, entretanto, dependerá da capacidade de alinhar essa competência técnica a uma estratégia nacional que transforme a extração de recursos em valor agregado industrial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney