O Brasil corre o sério risco de se tornar um mero espectador na revolução da inteligência artificial, sofrendo uma "colonização digital" imposta pela falta de infraestrutura e pela dependência de processamento de dados no exterior. A contundente avaliação é de Mat Velloso, um executivo brasileiro com um currículo impressionante, que acumulou passagens por gigantes como Microsoft, Google e Meta, e que recentemente deixou a Meta para focar em iniciativas no Brasil. Em entrevista concedida durante o Brazil at Silicon Valley, evento que teve sua primeira edição no país em parceria com a Fiesp, Velloso detalhou as falhas estratégicas que, em sua visão, impedem o Brasil de competir em igualdade de condições na nova economia digital.
A tese central de Velloso reside na soberania digital, um conceito que ele associa diretamente à capacidade de um país de controlar seu próprio destino. "Se metade da nossa inteligência já acontece fora do país, que controle é esse que eu tenho?", questiona o executivo, ressaltando que a dependência de data centers estrangeiros nos deixa vulneráveis a decisões externas que podem, a qualquer momento, "fechar a torneira da nossa inteligência". Essa dependência, segundo ele, é um gargalo crítico que se inicia na base da cadeia produtiva da IA: a energia. A China, por exemplo, investe massivamente em geração de energia, adicionando 540 gigawatts anualmente, o suficiente para construir dois Brasis inteiros. Em contraste, o Brasil adiciona apenas 9 gigawatts. A demanda por energia para alimentar os data centers e GPUs necessários para a IA é tão alta que os Estados Unidos preveem um déficit de 13 gigawatts em breve. O Brasil, com seu potencial energético, poderia atrair esses investimentos, mas a falta de preparo e de prioridade do setor público o impede de capitalizar essa oportunidade de ouro.
Infraestrutura Energética: O Alicerce Ignorado
Velloso critica a inação do setor público brasileiro diante da necessidade urgente de expandir a infraestrutura energética. Enquanto a indústria privada começa a se mover mais rapidamente, o governo parece alheio à importância estratégica de garantir energia barata e abundante. Programas como o Redata, que oferecem incentivos fiscais, são vistos como passos positivos, mas insuficientes diante da escala do desafio. A comparação com a China, que investe em energia mesmo com o impacto ambiental, ilustra uma questão de prioridade: primeiro, garantir a capacidade de processamento e inteligência; depois, atacar problemas como o aquecimento global. O executivo sugere que o Brasil deveria adotar uma abordagem semelhante, focando em construir a base energética necessária para não ser deixado para trás na corrida da IA. A falta de visão de longo prazo, exacerbada pelo ciclo eleitoral de quatro anos, impede que políticos brasileiros façam os grandes planos necessários para um futuro tecnológico competitivo.
Regulação da IA: Prioridades Desalinhadas
Além da infraestrutura, Velloso aponta uma "desorientação regulatória" em relação à inteligência artificial. A preocupação com a manipulação de eleições, por exemplo, leva a debates sobre deepfakes, mas ignora a capacidade de mineração de dados para influenciar populações inteiras, como no caso da Cambridge Analytica. O executivo argumenta que o Brasil está regulamentando demais em algumas áreas e de menos em outras, sem um senso claro de prioridade. Ele critica o foco em questões como copyright, que considera secundárias e com potencial de criar um "imposto sobre inferência", encarecendo o uso da IA. Em vez de começar pelo fim, regulando a inferência, o Brasil deveria focar em garantir a capacidade de processamento e a defesa de sistemas críticos. A comparação com o Vale do Silício, onde o foco inicial é fazer o negócio dar certo antes de se preocupar com o lucro imediato, evidencia uma inversão de prioridades no Brasil, onde se busca o ganho financeiro antes da consolidação e do sucesso sustentável.
Implicações Sociais e Econômicas: O Risco do Desemprego em Massa
As implicações da IA para o mercado de trabalho e a economia são um dos pontos mais preocupantes para Velloso. O medo de um desemprego em massa, embora ainda não materializado, é real. A automação de tarefas, desde a tradução simultânea até funções mais complexas, pode levar à substituição de empregos em larga escala. Isso impacta diretamente estruturas sociais como a previdência social, especialmente em países com populações envelhecendo e encolhendo. A China já começa a se mover, com decisões judiciais que limitam a substituição de humanos por IA. O Brasil e a maior parte do mundo ainda não começaram a pensar em soluções, como renda universal ou novas leis trabalhistas para essa nova realidade. Mercados emergentes como o Brasil enfrentam desafios adicionais, mas Velloso vê um contraponto na cultura de coletivismo, exemplificada pelo SUS, que pode oferecer um caminho para pensar em soluções mais equitativas e focadas no bem-estar social.
Otimismo Cauteloso e o Potencial Brasileiro
Apesar das críticas e dos desafios, Velloso mantém um otimismo cauteloso em relação ao potencial do Brasil. Ele destaca a explosão de criatividade e o surgimento de startups fantásticas, impulsionadas pela democratização de ferramentas como internet, IA e computação em nuvem. O executivo compara o desenvolvimento do internet banking e do Pix no Brasil com os sistemas americanos, mostrando que o país pode ser inovador e eficiente em áreas específicas. No entanto, a burocracia excessiva e a complexidade do sistema legal brasileiro ainda são grandes obstáculos. Ele acredita que, com um foco renovado na infraestrutura energética, uma regulamentação mais inteligente e um senso de prioridade claro, o Brasil pode reverter o quadro de "colonização digital" e se tornar um protagonista na era da inteligência artificial. A colaboração entre setor público e privado, com empresários genuinamente preocupados com o progresso do país, é fundamental para navegar essa transição tecnológica e garantir um futuro próspero.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea





