O Brasil corre o risco de assistir à nova revolução industrial da arquibancada. O alerta, feito por Mat Velloso, veterano com passagens por Microsoft, Google DeepMind e Meta, desloca o eixo do debate sobre inteligência artificial no país: o maior gargalo não está nos algoritmos ou na falta de talentos, mas na infraestrutura física mais básica, como energia e data centers.
Durante o Macro Day, evento do BTG Pactual, Velloso classificou como um “massacre” a disparidade entre a expansão da capacidade energética brasileira e a chinesa. A leitura é que, enquanto o debate local se concentra em criar modelos de linguagem próprios, o país pode perder a corrida por não ter onde ligá-los na tomada. A soberania em IA, nesse contexto, começa pela infraestrutura.
O "massacre" energético
Os números apresentados por Velloso são contundentes. A China adiciona cerca de 540 gigawatts (GW) de capacidade elétrica por ano, mais que o dobro de toda a capacidade instalada no Brasil, de aproximadamente 260 GW. O acréscimo anual brasileiro, por sua vez, é de apenas 9 GW. A conta não fecha para um setor cuja demanda energética é exponencial. Data centers que treinam e operam modelos de IA são notoriamente famintos por eletricidade.
O resultado prático, segundo o executivo, é que entre 30% e 35% dos chips de IA disponíveis globalmente no próximo ano não terão infraestrutura suficiente — energia, refrigeração, cabeamento — para entrar em operação. Isso cria uma janela de oportunidade para nações com potencial energético, como o Brasil e sua matriz renovável. Contudo, a lentidão na conversão desse potencial em projetos concretos faz com que operadores de data centers já considerem o Paraguai como alternativa, um sinal de alerta para a competitividade brasileira.
A soberania real
O risco de ficar para trás não é apenas comercial, mas civilizacional. Velloso traça um paralelo dramático, afirmando que o gap científico entre os países que dominarem a IA e os que ficarem de fora pode ser “tão grande quanto na época da colonização”. A tecnologia acelera a ciência em ordens de magnitude, como demonstra o AlphaFold do Google, que mapeou 200 milhões de estruturas de proteínas em um ano — tarefa que levaria séculos para pesquisadores humanos.
Nessa nova Guerra Fria tecnológica entre Estados Unidos e China, ficar à margem significa aceitar uma posição de dependência. Velloso, que recentemente levou o tema ao governo federal, defende que a discussão sobre soberania precisa ser pragmática. Mais do que um modelo de linguagem com sotaque brasileiro, o país precisa de uma política industrial focada em energia, capacidade computacional e infraestrutura de data centers. É ali que se joga a partida de verdade.
A janela de oportunidade para o Brasil ainda está aberta, mas o tempo é curto. A discussão precisa evoluir do software para o hardware, do abstrato para o concreto. A escolha é entre construir as fundações para participar da nova economia ou se contentar em ser um mero consumidor de tecnologias desenvolvidas em outros lugares.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





