O relógio biológico dita, em grande parte, quem ainda vive na sombra da exclusão letrada no Brasil contemporâneo. Ao cruzar a marca de 4,9% de analfabetismo, o país celebra uma vitória estatística que, embora tardia, sinaliza o fim de uma era de negligência escolar generalizada. No entanto, ao olharmos para os 8,4 milhões de brasileiros que ainda não dominam o código escrito, percebemos que o analfabetismo não é um fenômeno uniforme, mas um espectro que se concentra, teimosamente, no entardecer da vida.
O peso da trajetória histórica
A Pnad Contínua de 2025, divulgada pelo IBGE, escancara o que sociólogos chamam de "legado estrutural". A maior parte dos brasileiros que não sabem ler nem escrever — 58% do total — já ultrapassou a casa dos 60 anos. Para esse grupo, o analfabetismo não é uma escolha ou uma falha recente, mas o resultado de um sistema que, décadas atrás, simplesmente ignorou a existência de milhões de crianças no campo e nas periferias. A meta do Plano Nacional de Educação (PNE) de erradicar o analfabetismo até 2024 foi, na prática, atropelada pela realidade de uma dívida social que não se paga apenas com a construção de novas salas de aula.
A geografia da exclusão
O mapa do analfabetismo no Brasil ainda desenha as mesmas fronteiras de desigualdade de sempre. Enquanto o Sudeste e o Sul operam em patamares de 2,7% a 2,8%, o Nordeste ainda enfrenta uma taxa de 10,6%. Essa disparidade regional não é apenas um dado econômico; é um reflexo de como o desenvolvimento brasileiro foi, historicamente, assimétrico. O acesso à escola, que hoje é quase universal para as crianças, foi um privilégio negado a gerações inteiras no Norte e Nordeste, criando um abismo que as políticas públicas de alfabetização de adultos raramente conseguem transpor com a velocidade necessária.
O hiato entre gerações
Quando isolamos a população entre 15 e 59 anos, a taxa de analfabetismo cai drasticamente para 2,6%. Esse número é a prova de que o Brasil, finalmente, acertou o passo na escolarização básica das novas gerações. O desafio, agora, é entender como lidar com o estoque de analfabetismo acumulado. O Estado brasileiro, em sua estrutura atual, parece mais apto a prevenir o analfabetismo do que a curar a ferida daquelas pessoas que já passaram da idade escolar e, muitas vezes, não encontram motivação ou estrutura para retornar aos bancos escolares.
O futuro do letramento
O que permanece em aberto é a capacidade do país de transformar esses 4,9% em zero. Se o analfabetismo entre os jovens continuará a cair, o que faremos com aqueles que foram deixados para trás pelo tempo? A educação de adultos exige uma sensibilidade que o modelo escolar tradicional, desenhado para crianças, ainda não possui. Talvez o maior desafio não seja a técnica da alfabetização, mas a dignidade de oferecer, aos 60 ou 70 anos, a chave para um mundo que, até hoje, lhes foi mantido trancado.
É possível que, daqui a uma década, o analfabetismo no Brasil seja apenas uma nota de rodapé estatística, limitada a uma faixa etária cada vez mais reduzida. Mas, enquanto houver brasileiros incapazes de ler o próprio nome, a promessa de uma nação desenvolvida continuará sendo um exercício de retórica, distante da realidade de quem ainda vive no silêncio do analfabetismo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





