Para milhões de chineses, a vida é definida por uma pequena caderneta de cor grená. É ela que determina o acesso à saúde, à educação dos filhos e à aposentadoria. Este documento é o hukou, um sistema de registro de residência que vincula cada cidadão ao seu local de nascimento. Na China contemporânea, marcada por décadas de migração interna sem precedentes, essa herança burocrática se transformou em uma fonte de profunda desigualdade.

Segundo uma reportagem do portal espanhol Xataka, que compilou dados do último censo chinês, quase 358 milhões de pessoas no país vivem hoje em um lugar diferente daquele registrado em seu hukou. São trabalhadores, estudantes e suas famílias que, na prática, formam uma vasta 'população flutuante', privada de direitos básicos nas metrópoles que se tornaram seu lar.

Um passaporte para o passado

Instituído na década de 1950, o hukou foi uma ferramenta do governo para gerenciar a economia planificada e controlar o êxodo rural. A lógica era simples: quem nascia no campo deveria ter acesso a serviços no campo; quem nascia na cidade, na cidade. O sistema funcionou como um passaporte interno, erguendo barreiras institucionais para regular o fluxo de mão de obra e manter a estabilidade social.

O problema é que a China mudou, mas o hukou permaneceu teimosamente rígido. Alterar o registro para uma metrópole como Pequim ou Xangai é um processo burocrático extenuante, que pode exigir anos de emprego estável e contribuições fiscais. Sem o hukou local, comprar um imóvel, um carro ou matricular um filho em uma boa escola pública se torna uma tarefa quase impossível.

Os muros invisíveis

O resultado é a criação de 'muros invisíveis' que dividem a sociedade chinesa. De um lado, os cidadãos com hukou urbano, que desfrutam plenamente dos frutos do desenvolvimento econômico. Do outro, uma massa de migrantes que impulsiona esse mesmo desenvolvimento, mas vive em um limbo de direitos, como cidadãos de segunda classe.

Essa fratura social representa um dos maiores desafios para Pequim. A contradição entre o discurso de prosperidade nacional e a realidade de exclusão de centenas de milhões de pessoas se torna cada vez mais insustentável. Para as famílias afetadas, a questão é imediata e dolorosa, forçando escolhas como deixar os filhos para trás na cidade natal para que possam estudar.

Enquanto a China projeta ao mundo uma imagem de futuro e avanço tecnológico, internamente ela lida com as amarras de seu próprio passado. A questão que o governo enfrenta não é apenas econômica, mas existencial: como construir uma nação próspera e unificada quando o local de nascimento de um cidadão ainda determina seu acesso ao futuro?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka