Uma pesquisa recente da Avast, parte do relatório 2026 Safe Tech, expõe uma notável contradição no comportamento dos brasileiros em relação à inteligência artificial (IA) e à privacidade de dados. Embora 73% dos adultos brasileiros afirmem ter confiança em sua capacidade de identificar conteúdos falsos criados por IA, um percentual igualmente expressivo, 70%, já compartilhou ou considerou compartilhar informações sensíveis com ferramentas de IA.

Essa discrepância sugere que a percepção de segurança em reconhecer manipulações digitais não se traduz em uma cautela equivalente ao fornecer dados pessoais ou corporativos. Iskander Sanchez-Rola, diretor sênior de IA e Inovação da Gen (empresa à qual a Avast pertence), ressalta que "ter confiança de que você identificaria uma falsificação criada por IA e saber quando e como proteger seus dados são duas habilidades diferentes". O levantamento aponta que essa tendência se estende ao ambiente profissional, com 30% dos brasileiros admitindo ter compartilhado ou considerado compartilhar documentos de trabalho com chatbots de IA. O mesmo percentual relatou ter feito ou pensado em enviar capturas de tela de mensagens privadas ou e-mails, e 28% consideraram compartilhar currículos.

O estudo da Avast levanta um alerta importante para as empresas. A adoção de ferramentas de IA generativa, muitas vezes incentivada internamente, pode expor dados corporativos valiosos. Sem critérios claros para o tratamento dessas informações, as organizações correm o risco de vazamentos e perda de controle sobre propriedade intelectual, informações estratégicas e dados de clientes. A questão se agrava pelo fato de que, dependendo das políticas de uso e configurações de cada serviço de IA, os dados inseridos podem ser armazenados ou utilizados posteriormente, saindo do controle corporativo.

Além da questão do compartilhamento, a pesquisa também aborda a persistente suscetibilidade dos brasileiros a golpes tradicionais, mesmo com o aumento da conscientização sobre segurança digital. Metade dos entrevistados ignora ofertas "boas demais para ser verdade", e 45% podem desconsiderar pedidos de informações pessoais sob o pretexto de "apenas confirmar" dados. Michal Salat, diretor de Inteligência de Ameaças da Gen Threat Labs, observa que a IA torna os golpes mais convincentes na apresentação, mas os criminosos continuam explorando gatilhos conhecidos como urgência, confiança e medo. Dados recentes indicam que a IA está envolvida em milhões de interações, com cerca de 1 em 30 sendo sinalizada como golpe.

Curiosamente, o conhecimento sobre golpes não é amplamente disseminado. Embora 94% dos brasileiros consumam conteúdo sobre o tema (como true crime), apenas 48% compartilham ativamente essas informações com amigos ou familiares. Muitos optam por apagar mensagens suspeitas sem comentar (34%) ou investigar sozinhos (24%). Isso reforça a necessidade de as empresas não apenas definirem políticas claras de uso de IA, mas também de promoverem uma cultura de segurança da informação que incentive a comunicação e a cautela entre os funcionários.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside