A secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, tornou-se o centro de uma disputa política improvável ao tentar bloquear o descomissionamento do Projeto Potter Valley, no norte da Califórnia. A estrutura, que represa o Rio Eel, é considerada obsoleta pela proprietária, a concessionária Pacific Gas and Electric (PG&E), que busca demolir as barragens após décadas de ineficiência operacional e riscos sísmicos. O plano de remoção, fruto de anos de negociações entre agricultores locais e a tribo Round Valley, previa a restauração do fluxo natural do rio e a garantia de direitos hídricos para a comunidade rural.

Contudo, segundo reportagem da Grist, Rollins interveio diretamente no processo junto à Comissão Federal de Regulamentação de Energia (FERC), alinhando-se a um pequeno grupo de residentes locais que se opõem ao fechamento. A manobra da secretária, que incluiu encontros com opositores e declarações públicas sobre a suposta priorização de "peixes sobre pessoas", é vista por especialistas como uma tentativa de transformar questões de conservação em pauta de guerra cultural, similar a outras ações da pasta sob sua gestão.

O declínio de uma estrutura centenária

O Projeto Potter Valley enfrenta problemas estruturais graves que tornam sua manutenção um desafio técnico e financeiro. O reservatório está severamente comprometido pelo acúmulo de sedimentos e a planta hidrelétrica, que já foi responsável por uma fração mínima da geração de energia regional, não opera há anos. Além disso, a localização da estrutura sobre uma falha sísmica coloca em risco a integridade da barragem em caso de abalos, um cenário que a FERC descreve como um fator de risco inaceitável.

Historicamente, a gestão de pequenas barragens nos EUA tem seguido um caminho de negociações multipartidárias, buscando equilibrar as necessidades de irrigação com a preservação de ecossistemas vulneráveis. O caso de Potter Valley, contudo, destoa desse padrão. Enquanto a PG&E esgotou as tentativas de encontrar um comprador para a infraestrutura degradada, a intervenção federal de Rollins, apoiada por uma entidade de águas a 500 milhas de distância, ignora as realidades físicas do local e a inviabilidade de um modelo de operação continuada.

Mecanismos de uma intervenção inusitada

O envolvimento da Elsinore Valley Municipal Water District, uma agência de água do sul da Califórnia, adicionou um elemento de perplexidade à disputa. Sem infraestrutura para transportar água da região norte para o sul, a intenção da agência de adquirir as barragens é tratada por legisladores locais como uma manobra política. A conexão entre a entidade e aliados de Rollins reforça a tese de que a resistência ao descomissionamento possui motivações que transcendem a gestão hídrica, focando no apelo eleitoral junto a produtores rurais insatisfeitos.

O mecanismo utilizado pela Secretaria de Agricultura para justificar a oposição envolve a alegação de que a remoção das barragens prejudicaria investimentos federais e a viabilidade de fazendas familiares. No entanto, ex-funcionários da pasta apontam que o projeto não possui conexão direta com as missões da agência, como o Serviço Florestal ou o Serviço de Conservação de Recursos Naturais. A estratégia de usar a estrutura federal para pressionar agências reguladoras independentes como a FERC representa uma ruptura na forma tradicional como esses conflitos são mediados.

Tensões entre stakeholders e o futuro do Rio Eel

A posição da tribo Round Valley é um dos pontos mais críticos do impasse. Detentores de direitos hídricos sêniores, os membros da tribo alertam que, caso o acordo de remoção seja definitivamente bloqueado, a via judicial será inevitável. Uma disputa legal prolongada sobre os direitos de uso da água do Rio Eel poderia resultar em restrições ainda mais severas para os agricultores, anulando qualquer benefício que a manutenção temporária das barragens pudesse oferecer.

Para muitos produtores locais, a realidade mudou. Janet Pauli, uma das maiores proprietárias de terras na região, argumenta que a insistência em manter o projeto é um erro estratégico. Ela defende que a comunidade deveria focar em projetos de armazenamento de água mais modernos e resilientes, em vez de investir centenas de milhões de dólares na recuperação de uma estrutura que, por natureza, está condenada ao assoreamento e à obsolescência.

Incertezas e o impacto no ecossistema de negociação

O destino do Projeto Potter Valley permanece incerto enquanto a FERC avalia a solicitação de entrega da licença pela PG&E. A agência reguladora já sinalizou que a manutenção das barragens é tecnicamente inviável, mas a pressão política exercida por Rollins cria um ruído que dificulta o desfecho do processo. O que está em jogo não é apenas o futuro de uma pequena comunidade na Califórnia, mas a própria estabilidade de acordos ambientais bipartidários em todo o país.

Observar os desdobramentos deste caso revelará se a politização de infraestruturas locais se tornará uma tendência permanente ou se a necessidade técnica prevalecerá sobre o discurso ideológico. A questão fundamental permanece: até que ponto a intervenção federal pode sustentar a sobrevivência de ativos que o mercado e a própria geologia já decretaram como insustentáveis? O desfecho desta disputa definirá o precedente para futuras remoções de barragens em território americano.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Grist