A União Europeia deu um passo importante para normalizar a importação de carne de frango brasileira, suspensa no início de setembro. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o governo brasileiro recebeu uma comunicação oficial de Bruxelas indicando um acordo interno para destravar os embarques, que haviam sido barrados por novas e rígidas regras sobre o uso de antimicrobianos.

O movimento sinaliza uma desescalada na tensão comercial entre os dois blocos. O imbróglio não se deu por uma crise sanitária, como surtos de gripe aviária, mas por uma mudança regulatória unilateral da UE. A resolução, ainda que parcial, sublinha a complexa dança entre comércio global, soberania regulatória e o peso econômico do agronegócio brasileiro, que havia ameaçado com medidas de reciprocidade.

O Xadrez Regulatório

A barreira imposta pela UE em setembro não foi uma sobretaxa, mas algo mais sutil e complexo: uma barreira não-tarifária. O novo regulamento europeu proibiu a importação de produtos de origem animal, como carne de aves e mel, de países que não comprovassem a ausência de antimicrobianos para promoção de crescimento. Para a UE, trata-se de uma questão de saúde pública e padrão de consumo; para o Brasil, soou como protecionismo disfarçado de norma técnica.

A resposta brasileira foi dupla: diplomática e técnica. Enquanto o Itamaraty manifestava “profunda preocupação”, o Mapa trabalhava para demonstrar conformidade. O ponto de virada parece ter sido a auditoria que uma missão sanitária europeia realizou no Brasil entre agosto e setembro. O aval técnico dos auditores, que consideraram os controles brasileiros satisfatórios, forneceu a base para que os burocratas em Bruxelas pudessem construir um consenso político para a reabertura.

O Peso na Balança

Os números mostram o que estava em jogo. Apenas em agosto, antes da suspensão, o Brasil exportou 42,4 mil toneladas de carne de frango para a UE, segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Embora o mercado europeu não seja o único destino — as exportações totais do setor cresceram 15,5% até agosto —, sua importância como comprador de alto valor agregado é inegável.

A normalização, contudo, ainda não é imediata. O governo brasileiro aguarda o detalhamento do protocolo técnico para a retomada, o que significa que a vitória ainda não está consolidada. A rapidez com que as partes buscaram uma solução, no entanto, demonstra o pragmatismo de ambos os lados. O Brasil precisa do mercado europeu, e a Europa, aparentemente, também sentiu a falta do produto brasileiro em suas gôndolas.

O episódio serve de alerta. Para o agronegócio brasileiro, competir globalmente significa, cada vez mais, não apenas ser eficiente da porteira para dentro, mas também dominar a linguagem e as exigências de um mundo que valoriza selos, certificados e narrativas de sustentabilidade e saúde tanto quanto o preço. A negociação do frango é um ensaio para disputas futuras que certamente virão.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times