A BRZ Investimentos, gestora com mais de R$ 4 bilhões em ativos, está se movendo para ocupar um espaço cada vez mais visível no mercado brasileiro: o vácuo deixado pela caderneta de poupança no financiamento imobiliário. A casa anunciou o lançamento de seu primeiro Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) com foco no setor, em um momento em que a poupança registra saídas bilionárias e perde relevância como pilar da construção civil.

O movimento da BRZ, detalhado por seu CEO Ricardo Propheta em entrevista ao InfoMoney, não é apenas uma expansão de portfólio. É uma aposta na tese de que o financiamento de imóveis no Brasil passa por uma transformação estrutural. A queda da poupança, que já dura 11 semestres consecutivos, abre uma avenida para que o mercado de capitais assuma um protagonismo que, até então, era coadjuvante.

O fim de um modelo

Para Propheta, o declínio da poupança não é um fenômeno conjuntural, atrelado apenas ao ciclo de juros altos. A mudança é mais profunda e reflete um aumento da educação financeira do brasileiro. “Investir em poupança é fruto de falta de conhecimento”, afirmou o CEO, indicando que o investidor pessoa física está mais bem assessorado e com acesso a produtos mais sofisticados. A tradicional fonte de recursos para a compra e construção de imóveis está secando por uma decisão consciente do investidor.

É nesse descompasso — entre uma construção civil que mantém o ritmo e uma fonte de financiamento que encolhe — que a oportunidade para o crédito estruturado se materializa. A BRZ mira exatamente nesse nicho, financiando etapas como o início de obras e o crédito pré-plano empresarial, tanto em empreendimentos de alta renda quanto no programa Minha Casa Minha Vida, que Propheta define como uma “política de Estado”.

Disciplina como diferencial

Entrar no mercado imobiliário via FIDC implica navegar em um cenário de juros elevados, que ao mesmo tempo que torna o crédito bancário mais caro e abre espaço para alternativas, também eleva o risco de inadimplência. A resposta da BRZ para essa dualidade está em seu DNA de gestão de crédito privado, que já representa 60% de seus ativos. A gestora, um spin-off da GP Investments de 2005, foi pioneira na indústria de FIDCs no Brasil.

A filosofia, segundo Propheta, é de rigor analítico e disciplina. A garantia de um crédito é vista como um “plano D”; o foco principal está na viabilidade econômica do projeto a ser financiado. Essa abordagem exige uma análise profunda que vai além de balanços, chegando a influenciar o projeto arquitetônico de um empreendimento para garantir seu sucesso comercial. Para a BRZ, a complexidade da estruturação de um FIDC é o principal fator de proteção para o investidor, algo que, segundo o CEO, é muitas vezes negligenciado por novos entrantes na indústria.

O passo da BRZ é um sintoma da crescente sofisticação do mercado de capitais brasileiro. A gestora não está apenas lançando um produto, mas validando a percepção de que a desintermediação bancária no setor imobiliário é um caminho sem volta. A questão que fica é quão rápido e profundo será esse avanço sobre o território antes dominado pelos grandes bancos e pela poupança.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney