A Bunge está oficialmente fora do setor sucroenergético brasileiro. A gigante do agronegócio confirmou um acordo para a venda de suas duas últimas usinas de cana-de-açúcar no país — Rio Vermelho e Nova Unialco, ambas em São Paulo — para a Cofco International, braço de trading da maior empresa de alimentos da China.
O movimento, cujos valores não foram divulgados, conclui um desinvestimento estratégico que se desenrola há anos. Para a Bunge, a venda representa o fim de um capítulo e o reforço de sua disciplina de capital, concentrando energias em seu negócio principal de grãos e processamento de oleaginosas. Para a Cofco, é um passo calculado para consolidar sua presença industrial no Centro-Sul do Brasil.
O foco em grãos
A saída da Bunge não deve ser lida como um atestado de fracasso, mas como uma decisão de alocação de capital. A companhia vem, há anos, sinalizando ao mercado sua intenção de se desfazer de ativos considerados non-core. Em 2024, a venda de sua participação na joint venture BP Bunge Bioenergia para a sócia BP foi o principal sinal. Agora, a venda das usinas herdadas da fusão com a Viterra encerra o processo.
Conforme afirmou o diretor de operações Julio Garros, a transação está alinhada às prioridades estratégicas da companhia. O setor de açúcar e etanol é intensivo em capital e possui uma dinâmica própria, muitas vezes volátil. Ao sair dele, a Bunge libera recursos e foco de gestão para dobrar a aposta em suas operações globais de originação e processamento, onde acredita ter maior vantagem competitiva e sinergia.
O avanço chinês
Do outro lado da mesa, a Cofco International executa uma estratégia de expansão. A estatal chinesa já operava quatro usinas em São Paulo e, com a aquisição, eleva seu portfólio para seis unidades, aumentando sua capacidade de moagem para mais de 22 milhões de toneladas de cana por safra. A compra não apenas amplia a escala, mas também cria sinergias operacionais e logísticas com seus ativos já existentes na região noroeste paulista.
O movimento da Cofco é emblemático do interesse estratégico chinês em garantir acesso e controle sobre cadeias de suprimentos de commodities agrícolas no Brasil. Enquanto tradings ocidentais como a Bunge otimizam seus portfólios globais, players estatais asiáticos aproveitam a oportunidade para aprofundar suas raízes e construir plataformas integradas em um dos celeiros do mundo.
A transação redesenha sutilmente o mapa do setor. De um lado, uma gigante americana se retrai para focar naquilo que faz de melhor. Do outro, uma potência estatal chinesa fincam mais fundo suas estacas no agronegócio brasileiro, jogando um jogo de longo prazo com objetivos que transcendem o retorno trimestral.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





