Pescadores no Delta do Rio Pó, ao sul de Veneza, passaram os últimos dois anos incinerando toneladas de caranguejo-azul, uma espécie invasora que dizimou seus lucrativos viveiros de mariscos. Agora, numa reviravolta pragmática, o que era praga está se tornando a principal fonte de receita, com cooperativas locais projetando um faturamento de €20 milhões (cerca de US$ 23 milhões) em 2024, majoritariamente vindo da venda do predador.

A mudança de estratégia é uma resposta direta ao fracasso das tentativas de erradicação e à urgência econômica. Segundo reportagem da revista Fortune, a cooperativa de pescadores de Polesine viu sua receita despencar 75% e o número de membros ativos cair de 1.500 para 850. A tese que emerge não é de uma vitória ecológica, mas de uma adaptação forçada: já que não é possível vencer o invasor, o caminho é transformá-lo em um negócio viável.

Do desastre à oportunidade

A explosão populacional do caranguejo-azul, presente no Adriático desde os anos 1940, foi catalisada pelas mudanças climáticas. O aumento da temperatura da água e da salinidade — consequência da seca que reduziu o fluxo do rio Pó — criou o ambiente perfeito para a reprodução da espécie. O resultado foi devastador para a economia local, dependente dos mariscos, que eram devorados em ritmo alarmante pelos caranguejos.

Diante do fracasso do programa governamental que pagava pela captura e incineração dos animais, a cooperativa, liderada por Paolo Mancin, buscou uma saída de mercado. A solução foi uma joint venture com a empresa Taprobane Seafoods, do Sri Lanka. Os caranguejos capturados na Itália são cozidos, congelados e enviados para o país asiático, onde a carne é extraída manualmente. O produto final é então exportado para mercados internacionais, com uma pequena parte retornando à Itália, já processada.

Um negócio com asteriscos

A recuperação financeira, embora notável, vem com ressalvas importantes. O preço pago pelo quilo do caranguejo é de apenas €1,30, uma fração dos €10 que os pescadores recebiam pelo quilo do marisco, que antes representava 90% de sua renda e hoje responde por apenas 10%. O novo modelo de negócio garante a sobrevivência, mas não restaura a prosperidade de antes. O sucesso depende inteiramente da demanda de exportação, um elo vulnerável na cadeia.

O maior obstáculo, no entanto, é cultural. Na própria Itália, o caranguejo-azul enfrenta forte resistência. Consumidores e restaurantes de prestígio ainda o veem como uma praga e preferem espécies nativas. Chefs locais, como Stefania Marchesini, tentam promover o ingrediente com menus dedicados, mas admitem que a aceitação é lenta. A resistência interna força a indústria a depender de mercados distantes, tornando a operação mais complexa e arriscada.

O caso italiano é um estudo sobre resiliência econômica em tempos de crise ambiental. A solução encontrada não resolve o problema ecológico de fundo, mas oferece um caminho para que as comunidades afetadas se mantenham ativas. A questão que permanece é se este modelo de adaptação é sustentável a longo prazo ou apenas um paliativo engenhoso enquanto o ecossistema continua a se transformar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune