Para uma gigante de manufatura como a Jabil, com mais de 100 fábricas em 30 países e uma força de trabalho de 140 mil pessoas, a complexidade operacional não é uma hipótese, mas uma realidade diária. Em um movimento contraintuitivo em meio à febre da inteligência artificial, a companhia decidiu que o caminho para a inovação não passava por novos algoritmos, mas por uma faxina na própria casa: a integração e simplificação de seus sistemas legados.

Em uma entrevista ao podcast Business Lab, da MIT Technology Review, o diretor de TI para SAP da Jabil, Harish Manohar, detalhou a filosofia que guia a transformação da empresa: “simplificar primeiro, depois inovar”. A tese central é que adicionar novas tecnologias sobre uma base fragmentada de ferramentas específicas por local, planilhas e processos manuais apenas amplifica o caos e a dívida técnica. Antes de sonhar com IA, a Jabil entendeu que precisava resolver um problema fundamental: a criação de uma espinha dorsal de dados coesa e confiável.

A estratégia do "simplificar primeiro"

A jornada da Jabil começou com o reconhecimento de que a proliferação de sistemas criava silos de dados que impediam a visibilidade da operação, atrasavam a resposta a problemas e minavam a tomada de decisão. Com décadas de operação, cada planta desenvolveu suas próprias ferramentas e fluxos de trabalho, resultando em um cenário onde a consolidação de informações era um exercício hercúleo e propenso a erros. A resposta foi tornar a integração uma prioridade estratégica, e não uma reflexão tardia.

O objetivo, segundo Manohar, é padronizar processos, consolidar sistemas sempre que possível e estabelecer uma base de dados consistente em toda a organização. Para isso, a empresa adotou a SAP Integration Suite como peça central de sua arquitetura, buscando criar um fluxo de dados contínuo. A abordagem é pragmática: qualquer modernização deve gerar valor de negócio mensurável. Isso significa abandonar a customização excessiva de sistemas — um dos grandes desafios de uma empresa que atende a mais de 400 das maiores marcas do mundo — em favor de um modelo mais padronizado, alinhado à abordagem "clean core" da SAP.

Da integração à inteligência

O trabalho de base, embora pouco glamoroso, é o que destrava o verdadeiro potencial de tecnologias como a inteligência artificial. Com sistemas integrados e dados confiáveis fluindo em tempo real, a Jabil começa a colher os frutos. A visibilidade ponta a ponta na cadeia de suprimentos permite identificar a falta de materiais mais cedo e responder a disrupções com mais agilidade, reduzindo o risco operacional. Para os funcionários, a mudança é tangível: menos tempo gasto em reconciliação manual de dados e mais tempo focado em agir sobre os insights gerados.

É somente com essa fundação sólida que a Jabil agora explora aplicações mais avançadas de IA. As áreas de foco incluem a criação de insights preditivos para a cadeia de suprimentos, o tratamento inteligente de exceções nas operações e o uso de IA para planejamento e previsão de demanda. A lógica é clara: a IA precisa de dados confiáveis para aprender e de sistemas integrados para agir. Sem isso, qualquer projeto se torna um experimento isolado, com pouca chance de escalar e gerar valor real para o negócio.

A jornada da Jabil serve como um manual para outras grandes corporações, inclusive no Brasil, que enfrentam desafios semelhantes com sistemas legados. A lição é que a simplicidade em escala, como define Manohar, é uma poderosa vantagem competitiva. Antes de se deixar levar pela promessa da IA, é preciso garantir que a fundação tecnológica da empresa seja um ativo, e não um passivo. O investimento em tecnologia, no fim, deve estar diretamente ligado ao valor de negócio e à resiliência operacional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Technology Review