Pescadores artesanais em Porto Rico enfrentam uma crise dupla: o agravamento das mudanças climáticas, que altera a biodiversidade marinha e destrói infraestruturas costeiras, e uma burocracia estatal ineficiente que impede a adaptação do setor. Segundo reportagem da Grist, comunidades como a de Culebra, que restauraram com esforço próprio suas vilas pesqueiras, encontram-se isoladas pela falta de coordenação entre agências governamentais e pela escassez de suporte federal.

A situação reflete um descompasso estrutural profundo. Enquanto o governo declara estados de emergência devido à erosão costeira, os pescadores relatam que o acesso a auxílios para reconstrução é marcado por atrasos, desvios de finalidade e uma fragmentação regulatória que torna qualquer projeto de modernização ou resiliência, como fazendas de ostras ou sistemas de energia solar, um desafio administrativo quase intransponível.

O legado de uma governança fragmentada

A história das 'villas pesqueras' em Porto Rico é marcada por tentativas de formalização que acabaram por sufocar a autonomia local. Criadas na década de 1960 para organizar o setor, essas estruturas passaram a ser geridas por um emaranhado de agências após a dissolução da CODREMAR em 1990. Hoje, a responsabilidade pela gestão desses centros de desembarque é dividida entre departamentos de Agricultura, Recursos Naturais e Ambientais, além de instâncias federais dos Estados Unidos.

Especialistas apontam que essa colcha de retalhos institucional gera uma desconexão fatal. Quando um pescador tenta implementar melhorias, ele se depara com exigências contraditórias entre agências que raramente dialogam. O resultado é a deterioração de instalações essenciais, muitas das quais já haviam sido reconstruídas precariamente após o furacão Maria, em 2017, apenas para sucumbir novamente à falta de manutenção e ao avanço do nível do mar.

O custo da inércia administrativa

A ineficiência não é apenas um entrave burocrático, mas um gargalo econômico. Auditorias recentes revelam que uma parcela mínima dos fundos de assistência a desastres destinados às pescas foi efetivamente distribuída. Em muitos casos, os recursos que chegam são aplicados em projetos que não consideram a nova realidade climática, reconstruindo estruturas obsoletas que não resistirão aos eventos extremos cada vez mais frequentes.

Para os pescadores, a adaptação tem sido um esforço solitário. Iniciativas de sucesso, como a instalação de painéis solares e sistemas de energia renovável em Culebra, foram financiadas e executadas pelos próprios trabalhadores, muitas vezes sem qualquer apoio estatal. A dependência de modelos de gestão obsoletos impede que o setor, que representa uma parcela pequena do PIB, mas é vital para a soberania alimentar de comunidades vulneráveis, alcance um patamar mínimo de segurança operacional.

Tensões entre conservação e sobrevivência

As implicações desse cenário são graves para a segurança alimentar. Em regiões onde a pobreza supera a média nacional dos EUA, a pesca artesanal é uma estratégia de sobrevivência. A falta de valorização oficial e a dificuldade em obter licenças para inovações, como a aquicultura de espécies nativas, criam uma tensão permanente entre os pescadores e os reguladores, que priorizam processos formais sobre a realidade de campo.

Além disso, o histórico de uso de ilhas como Vieques para fins militares adiciona camadas de contaminação e incerteza política. Quando o governo falha em fornecer uma estrutura clara, o setor pesqueiro fica à mercê de decisões externas que ignoram o conhecimento local. A necessidade de um sistema regulatório centralizado e simplificado é apontada como a única via para evitar que a pesca artesanal desapareça.

Caminhos para a adaptação climática

O futuro da pesca em Porto Rico depende de uma mudança radical na forma como o governo interage com as comunidades costeiras. Pesquisadores já buscam alternativas, como o design de infraestruturas móveis que possam ser retiradas antes da chegada de furacões, mas tais inovações esbarram na falta de financiamento e na rigidez das normas atuais. A incerteza sobre qual agência tem autoridade final sobre cada metro de costa continua a ser o maior obstáculo.

O que se observa é um ciclo de desgaste onde o pescador, exausto pela burocracia, acaba por desestimular as novas gerações a seguir na profissão. A questão que permanece é se o Estado será capaz de reconhecer a pesca não apenas como uma atividade econômica marginal, mas como um pilar da resiliência climática do arquipélago antes que o colapso da infraestrutura seja total.

A luta dos pescadores de Culebra por autonomia e sobrevivência exemplifica a resistência de um setor que, apesar de essencial, opera à margem das políticas públicas. A pergunta sobre como equilibrar a necessidade de regulação ambiental com a urgência de adaptação climática continua sem resposta, enquanto o mar, implacável, avança sobre as vilas pesqueiras.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Grist