A presença de cães em registros visuais atravessa milênios, mas raramente é analisada como um fio condutor da própria história da humanidade. Em sua nova obra, 'The Dog's Gaze: A Visual History' (2026), o historiador Thomas W. Laqueur oferece uma perspectiva sobre como a arte ocidental, desde o período Paleolítico, utilizou a figura canina para mediar a relação entre espécies. O autor propõe que o cão possui uma capacidade única de 'ver conosco', funcionando como um ponto de intersecção emocional que desafia a distância biológica e cultural entre humanos e animais.
A estética da sociabilidade
Laqueur argumenta que a inclusão recorrente de cães em pinturas de mestres como Vittore Carpaccio ou Pierre-Auguste Renoir não é meramente decorativa. Pelo contrário, esses animais frequentemente estabelecem eixos estruturais de visão nas obras, guiando o olhar do espectador para o centro da narrativa. Em 'St. Augustine in His Study' (1501–1505), por exemplo, o cão atua como um elemento que ancora a cena, enquanto em obras posteriores, como o retrato de família de Renoir de 1878, o animal é integrado à unidade familiar como um membro fundamental, marcando uma mudança sociológica na forma como tratamos a companhia animal.
O cão como testemunha silenciosa
Um dos mecanismos mais interessantes apontados pelo autor é o uso do cão como a 'testemunha solitária' do sofrimento humano. Em pinturas que retratam mitos ou cenas de luto, como em 'The Old Shepherd's Chief Mourner' (1837) de Edwin Landseer, o animal é o único capaz de reconhecer e validar a dor humana. Essa função narrativa transforma o cão em um espelho da empatia, forçando o público a confrontar emoções que, se representadas apenas por humanos, poderiam soar excessivamente teatrais ou distantes.
Tensões entre academia e afeto
Embora o livro mantenha um rigor acadêmico, Laqueur admite a dificuldade de separar a análise histórica da própria experiência afetiva. Ele transita entre a crítica a artistas que, em sua visão, 'banalizam' a figura canina ao antropomorfizá-la excessivamente, e a sua própria vulnerabilidade ao incluir fotos pessoais de seu cão, Rudi. Essa dualidade é o núcleo da obra: a tensão entre a necessidade de manter uma distância crítica e o desejo inevitável de projetar humanidade nos animais que nos cercam.
O futuro da percepção animal
O trabalho de Laqueur abre questões sobre o papel que a arte contemporânea pode desempenhar na forma como tratamos animais em contextos de exploração, como a pesquisa biomédica. Ao historicizar nossa sensibilidade, o autor sugere que a 'humanização' do cão, embora criticada por puristas, pode ser o caminho necessário para garantir padrões éticos de cuidado. O livro não busca ser um tratado de direitos animais, mas, ao elevar o status do cão na cultura visual, ele inevitavelmente convida o leitor a repensar a responsabilidade humana diante de outras espécies.
A obra de Laqueur nos deixa com o desafio de entender se nossa necessidade de projetar sentimentos humanos nos cães é uma falha cognitiva ou uma forma de evolução da nossa própria capacidade de empatia. Ao fechar o livro, resta a dúvida sobre como as futuras gerações de artistas retratarão essa relação em um mundo cada vez mais mediado por telas e menos pelo contato físico direto. Com reportagem de Brazil Valley
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