Para a maioria dos jornalistas, uma entrevista é sobre o presente ou o futuro próximo. Para Sam Roberts, repórter do New York Times, a conversa é frequentemente sobre o passado definitivo. Ele é um dos arquitetos dos chamados obituários antecipados, perfis de figuras notáveis escritos enquanto elas ainda vivem, guardados para publicação no momento de sua morte. Em um ensaio para a publicação literária Lit Hub, Roberts reflete sobre essa prática peculiar, revelando uma verdade fundamental: um bom obituário não é sobre a morte, mas sobre a vida.
A prática expõe uma tensão inerente à condição humana: o desejo de controlar a própria narrativa até o fim. É uma busca pela última palavra, uma tentativa de moldar a memória que restará. Roberts conta que, ao contrário do que se poderia esperar, quase ninguém recusa o convite para ser entrevistado para o próprio obituário. A oportunidade de influenciar o que o “jornal de referência” dirá sobre sua trajetória parece ser mais forte do que o desconforto de encarar a própria finitude. É o legado em sua forma mais literal, negociado em vida.
A vida, não a morte
O ofício, segundo Roberts, é capturar o que Ann Wroe, editora de obituários da The Economist, chama de “a alma” do sujeito. O objetivo transcende a cronologia de fatos e cargos. A verdadeira arte está em responder a perguntas essenciais: O que moveu essa pessoa? Quais foram suas ambições, seus sonhos, os obstáculos que superou? O texto final deve ser uma minibiografia que valida uma vida — não necessariamente uma vida exemplar, mas uma que foi transformadora ou, no mínimo, digna de registro.
Essa preocupação com a posteridade convive com uma profunda ambivalência sobre a imortalidade em si. Roberts cita a autora Natalie Babbitt, que considerava a vida eterna “chata, triste e solitária”. O humorista Woody Allen declarou preferir alcançar a imortalidade “não morrendo”. Já o intelectual ateu Christopher Hitchens rejeitava a ideia de uma festa celestial compulsória e eterna. As diferentes perspectivas mostram que, mais do que a vida após a morte, o que parece importar é o significado da vida antes dela.
O legado como última transação
Essa busca por significado explica por que a preparação de um obituário se assemelha a uma transação final de reputação. Mark Twain, preocupado com a forma como seria lembrado, chegou a publicar um anúncio na revista Harper’s pedindo que os jornais publicassem seus obituários antecipados para que ele pudesse editá-los. O que o preocupava não eram os fatos, mas “a luz que o obituarista lançará sobre eles, os significados com que os vestirá, as conclusões que tirará deles”. O veredito, como ele mesmo disse, era a “linha de perigo”.
Ser objeto de um obituário no New York Times é, por si só, uma medida de relevância, quase uma forma de imortalidade secular. Cimenta um legado e atesta que aquela existência teve impacto. Roberts ilustra esse desejo humano com a anedota de um editor da Associated Press, famoso por suas regras rígidas, que implorou a um repórter para dar uma espiada em seu próprio obituário. A necessidade de saber como seremos lembrados parece ser universal, atingindo até mesmo aqueles que ditam as regras.
No fim, a questão talvez não seja se há vida após a morte, como observou o filósofo Ludwig Wittgenstein, mas que problema essa existência resolveria. A força motriz parece ser outra: o instinto de que a vida importa, como define a filósofa Rebecca Newberger Goldstein. É o desejo de viver de forma a ter um significado aos nossos próprios olhos. O obituário, lido por outros, torna-se o testemunho público desse esforço privado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





