Uma de suas telas de grande formato é dedicada ao mar saaraui. O paradoxo é que o artista, Aawah Walad, nunca o viu pessoalmente. Nascido em 1990 em um campo de refugiados, sua imagem do oceano é construída a partir da memória coletiva e do patrimônio natural de seu povo. A pintura se torna, assim, mais do que representação: é uma forma de acesso a uma realidade perdida.

Este gesto resume o espírito da exposição ‘Leyarem’, inaugurada em Palma de Maiorca. A mostra, com 23 óleos sobre tela, é um convite para descobrir a cultura e a resistência do povo saaraui através de uma arte que funciona como arquivo e manifesto. É um projeto que transcende a estética para se tornar um veículo de preservação da identidade.

A Memória como Território

O título da exposição, ‘Leyarem’, refere-se a uma zona de Tiris Zemmour, no Saara Ocidental, um lugar de profundo valor simbólico para a família do artista e para a cultura local. Ao nomear a mostra assim, Walad reivindica um espaço geográfico através do espaço pictórico. Se o território físico é inacessível, a tela se converte em paisagem possível, um mapa afetivo e espiritual.

Sua obra, herdeira de uma família ligada à poesia, busca dar visibilidade à cultura hassania, retratando a vida nos acampamentos, o deserto e a resiliência de seu povo, com especial atenção ao papel das mulheres. Para Walad, a arte só adquire sentido quando está “a serviço da dignidade, da liberdade e dos direitos dos povos”, segundo a reportagem da Forbes España.

Da Tenda ao Museu

A trajetória do artista é, em si, uma narrativa de resistência. Do acampamento de refugiados de El Aaiún, sua obra viajou para exposições na Europa e América Latina, provando que a arte pode cruzar fronteiras que pessoas não podem. A chegada a Palma, na Espanha, carrega um peso particular, ao apresentar esta cultura de resistência no território da antiga potência colonial.

Como observou a conselheira de cultura local, Antònia Roca, a arte funciona aqui como “uma ferramenta de transformação social e um espaço de encontro entre povos”. A exposição não é apenas uma janela para uma cultura distante, mas um espelho que reflete as complexidades da história, do exílio e da identidade no século XXI.

Até seu encerramento, em 12 de setembro, as telas de Walad continuarão a construir essa pátria portátil. A questão que sua obra deixa no ar é sobre o que acontece quando a paisagem de uma nação existe mais vividamente sobre a tela do que no próprio chão.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España