A comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira (27), o texto-base da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala de trabalho 6×1 e reduz a jornada semanal no país. A matéria, que recebeu 34 votos favoráveis e quatro contrários, estabelece um cronograma de transição para a nova carga horária, que será fixada em 40 horas semanais após um período de 12 meses, com a obrigatoriedade de dois dias de repouso remunerado.

O projeto, relatado pelo deputado Leo Prates (Republicanos-BA), unifica propostas anteriores, como a PEC 221/19 e a PEC 8/25. A aprovação marca um movimento legislativo relevante sobre a estrutura do mercado de trabalho brasileiro, buscando responder a pressões sociais por maior tempo de descanso, enquanto tenta preservar a viabilidade operacional de diversos setores econômicos.

O desenho da transição e as exceções

O texto aprovado define uma implementação escalonada para evitar choques bruscos no mercado. Sessenta dias após a promulgação da emenda, a jornada será reduzida para 42 horas semanais. A meta de 40 horas será atingida definitivamente em um ano. O relator enfatizou a dimensão social da medida, argumentando que a mudança visa proporcionar um equilíbrio maior entre a vida profissional e o convívio familiar, tratando a redução como um avanço na qualidade de vida do trabalhador brasileiro.

Para mitigar impactos em setores de operação contínua, o texto mantém a validade de acordos e convenções coletivas. Regimes como a escala 12×36 e atividades essenciais, incluindo saúde, segurança e transporte, terão flexibilidade para manter escalas adaptadas, desde que respeitados os limites diários de oito horas e o teto semanal de 40 horas. Uma lei complementar deverá detalhar as regras específicas para microempreendedores e empresas de pequeno porte.

Dinâmicas políticas e o debate econômico

O debate na comissão revelou divisões profundas sobre o papel do Estado na regulação do tempo de trabalho. Enquanto parlamentares da base governista celebraram a aprovação como uma vitória contra a rigidez do modelo 6×1, a oposição e representantes do setor empresarial alertaram para o risco de aumento nos custos operacionais. O deputado Gilson Marques (Novo-RS) defendeu a flexibilidade total, argumentando que a rigidez imposta pode resultar em repasse de custos aos preços finais, afetando o poder de compra do próprio trabalhador.

A estratégia de oposição no Plenário promete ser intensa. O líder do PL, deputado Sóstenes Cavalcante, indicou que o partido buscará defender uma redução ainda mais célere, propondo a escala 4×3, gerando um paradoxo político onde a oposição pressiona por uma mudança mais radical do que a proposta original. A divergência sobre a velocidade da transição e os impactos inflacionários permanece como o principal ponto de atrito para a votação final.

Implicações para o mercado e stakeholders

Para as empresas, o desafio será a adaptação contratual e a gestão de produtividade em um novo cenário de custos. O texto prevê que, em contratos públicos e terceirizados, a redução dependerá de aditivos contratuais, concedendo um prazo de até 12 meses para o ajuste. Esse mecanismo protege o equilíbrio econômico-financeiro de contratos vigentes, mas impõe um ônus de renegociação para o setor de serviços, que é o maior empregador sob a escala 6×1.

Reguladores e o mercado de trabalho observarão como as convenções coletivas absorverão essas novas diretrizes. A descentralização das regras para lei complementar em casos específicos sugere que a aplicação da PEC será heterogênea, dependendo fortemente da capacidade de negociação entre sindicatos e empregadores para definir o que constitui um regime diferenciado viável.

Perspectivas e incertezas

A tramitação no Plenário da Câmara e, posteriormente, no Senado, será o teste definitivo para a viabilidade política da proposta. Resta saber se o texto aprovado na comissão sofrerá alterações significativas sob a pressão de emendas ou se a base governista manterá a coesão necessária para a aprovação constitucional. O mercado aguarda sinais claros sobre a flexibilidade real que as futuras leis complementares oferecerão.

A eficácia da mudança, em última instância, dependerá da capacidade da economia em sustentar a redução da jornada sem gerar desemprego ou informalidade. O debate sobre a produtividade do trabalho no Brasil, que historicamente acompanha essas discussões, continuará central enquanto a proposta avança para as próximas etapas legislativas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times