A recente abertura da Carnegie International em Pittsburgh traz uma reflexão contundente sobre o papel da colaboração na arte contemporânea. Com a curadoria de Ryan Inouye, Liz Park e Danielle A. Jackson, a edição intitulada “If the word we” — uma referência direta ao ensaio de Haytham el-Wardany sobre a impossibilidade do indivíduo sem o coletivo — reúne 61 artistas que exploram a solidariedade como método de resistência. Segundo reportagem da ARTnews, a mostra se distancia do modelo tradicional de exposições focadas em talentos isolados, propondo que a criação artística, assim como a sobrevivência social, é um esforço intrinsecamente partilhado.
O tom da exposição é estabelecido desde o início, com obras que evocam a superação de limites através do apoio mútuo. A performance de Brooke O’Harra, inspirada na lendária enterrada de Julius Erving, serve como metáfora central: o feito esportivo, muitas vezes visto como um momento de heroísmo individual, é reinterpretado pelos artistas como o resultado de um sistema de suporte e prática coletiva. Essa tese permeia toda a curadoria, conectando preocupações globais urgentes, como os conflitos na Palestina, Ucrânia e Sudão, a uma prática artística que busca dissolver a autoria singular em favor de processos colaborativos.
A dissolução da autoria individual
O conceito de autoria, tradicionalmente central no sistema da arte, é desafiado em diversas instalações da Carnegie International. Um exemplo notável é a obra dos artistas peruanos Claudia Martinez Garay e Artur Kameya, cuja instalação maximalista no Mattress Factory torna impossível distinguir a contribuição específica de cada um. A obra, que aborda a rebelião indígena de Túpac Amaru II contra o domínio colonial espanhol, utiliza o espaço para criar uma narrativa densa onde a colaboração é a própria substância da peça.
Da mesma forma, o coletivo Silät, composto por tecelãs Wichí da Argentina, apresenta uma série de 102 tramas que se entrelaçam em um corredor, simbolizando a união da comunidade. A curadoria também dá espaço a vozes históricas, como o fotógrafo indonésio Firman Ichsan e o curador G. Peter Jemison, que revisita sua própria mostra de 1975 com uma nova perspectiva. Ao integrar essas vozes, a exposição sugere que a resistência artística através da união não é uma tendência passageira, mas uma tradição longa e necessária de enfrentamento a regimes autoritários.
A abstração como prática de rede
Uma das facetas mais interessantes desta edição é a reinterpretação da abstração. Historicamente associada ao trabalho solitário de gênios introspectivos, a abstração aqui assume uma dimensão logística e social. O artista Zhao Yao, por exemplo, utiliza cascas de ovos adquiridas via comércio eletrônico, dependendo de cadeias de suprimentos globais para concretizar sua visão. A obra deixa de ser o produto de um estúdio isolado para se tornar o ponto final de uma rede de distribuição e colaboração.
Da mesma forma, a artista coreana Hong Lee Hyunsook realizou sua monumental frottage de 35 metros de altura no monte Insubong apenas com o auxílio de outros escaladores. A obra, que recepciona os visitantes no estacionamento do museu, é um testemunho físico da necessidade de suporte externo. O uso de materiais que exigem logística, como a frottage de Hong ou os sistemas magnéticos de RJ Messineo, transforma a abstração em uma forma de arte que necessita de outros para ganhar corpo e significado.
Tensões e implicações para o ecossistema
A exposição não está isenta de tensões. A inclusão de mini-exposições históricas, embora relevante, por vezes incorre em um academicismo que contrasta com a urgência da arte contemporânea apresentada nos pavilhões principais. Há um debate latente sobre se o formato de bienal é o ambiente ideal para o resgate dessas trajetórias, ou se estas exigiriam retrospectivas dedicadas e independentes para evitar a diluição de seu impacto político e histórico.
Para o ecossistema brasileiro e global, a Carnegie International sinaliza uma mudança de paradigma. A crescente representação de artistas fora do eixo tradicional Estados Unidos-Europa, iniciada na edição de 2022, consolida-se como um compromisso estrutural. A presença de sindicatos, como o United Steelworkers, em meio às obras, reforça a conexão entre a luta trabalhista e a produção estética, sugerindo que o futuro da arte está intrinsecamente ligado à capacidade de criar laços em um mundo cada vez mais fragmentado.
O futuro da solidariedade no campo artístico
Permanecem questões sobre como o mercado de arte, historicamente estruturado em torno da valorização do indivíduo e da escassez, absorverá essa virada coletivista. A dificuldade de precificar ou vender obras que dependem da colaboração constante de dezenas de pessoas ou de redes de logística complexas pode representar um desafio para as galerias e colecionadores que buscam categorizar o valor artístico sob as métricas tradicionais.
Observar como instituições de grande porte, como o Carnegie Museum, equilibrarão essa curadoria voltada ao coletivo com as demandas institucionais de visibilidade e financiamento será um ponto fundamental para os próximos anos. A mostra deixa claro que, se a arte pretende continuar sendo um espelho da sociedade, ela terá que aprender a soar, como sugerem os artistas, sem a ilusão de que alguém pode fazê-lo sozinho.
A exposição convida o público a reconsiderar o que significa ser um criador em um momento de crises globais sobrepostas. Ao abandonar a narrativa do indivíduo heroico, a Carnegie International abre caminho para uma compreensão mais realista e, talvez, mais resiliente da produção cultural. O sucesso dessa empreitada dependerá da capacidade do sistema artístico de sustentar essa prática de solidariedade para além das paredes do museu.
Com reportagem de ARTnews
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