A exposição "Beyond the Manosphere: Masculinities Today", recém-inaugurada no Stedelijk Museum, em Amsterdã, chega ao público com a promessa de dissecar as complexidades da masculinidade no século XXI. No entanto, o que se apresenta é um exercício de curadoria que parece mais preocupado com a economia da atenção do que com uma investigação cultural genuína. Embora o título convoque diretamente a "manosfera", a comunicação e os textos curatoriais recorrem a gírias da cultura digital — como "looksmaxxing" — numa chave que soa como tentativa forçada de relevância, lembrando um educador que usa termos da internet sem dominar seu contexto ou peso real.

A crítica central é que o museu utiliza esses conceitos como palavras-chave de busca, sem que a seleção de obras realmente dialogue com a agressividade digital ou a misoginia online que o enquadramento sugere. Segundo reportagem da ARTnews, a exposição acaba recaindo em temas convencionais sobre a construção da masculinidade, ignorando décadas de debates acadêmicos e exposições anteriores que já exploraram o tema com maior rigor. Em vez de uma análise crítica sobre o fenômeno da radicalização masculina, o visitante encontra uma narrativa que confunde "ser homem" com a performance da masculinidade, perdendo a oportunidade de investigar o que há de bizarro ou genuinamente novo nessas identidades.

A armadilha do SEO cultural

O uso de termos como "manosfera" funciona, nesta mostra, como uma isca de cliques institucional. Rein Wolfs e Gianni Jetzer, diretores do Stedelijk e do Kunstmuseum St. Gallen, argumentam — segundo a ARTnews — que o objetivo é usar o termo como ponto de partida para uma investigação mais ampla. Contudo, a execução contradiz essa intenção. O museu tenta colher os benefícios da atenção gerada por temas polêmicos enquanto, simultaneamente, se distancia deles ao exibir obras que pouco têm a ver com a realidade dos fóruns de incels ou a mercantilização de corpo e status que permeia subculturas digitais.

Historicamente, o mundo das artes visuais tem abordado a masculinidade há décadas. Exposições como "The Masculine Masquerade", no MIT List Visual Arts Center (1995), ou "Fashioning Masculinities", no V&A (2022), já percorreram caminhos semelhantes. O problema do Stedelijk é a falta de conexão com a urgência que o enquadramento propõe. Ao elidir a diferença entre a experiência de ser homem e o conceito de masculinidade, a curadoria esvazia o debate, tratando a masculinidade como um acessório a ser desconstruído, sem abordar a ansiedade e o comércio de identidade que realmente movem o ecossistema digital atual.

Mecanismos de poder e representação

A estrutura da exposição, dividida em eixos como "Legado", "Violência" e "Desejo", revela uma dependência excessiva de convenções que a mostra afirma querer subverter. A curadora Melanie Bühler introduz a mostra com uma anedota sobre a dificuldade de instalar obras de Richard Serra, interpretando a escala monumental do artista como uma imposição masculina inevitável. Esta leitura, contudo, é limitada. Ao tentar contrapor Serra com artistas que buscam a "hiper-feminização" ou a ironia, a exposição apenas reforça o binarismo que deveria estar desmantelando.

Obras como "If It Moves Kiss It", de Lucy McKenzie, que reproduz grafites de "A Laranja Mecânica", conseguem, por outro lado, subverter a solenidade da virilidade tradicional através de um humor homoerótico cartunesco. É aqui que a exposição ganha fôlego, mas esses momentos são raros. A organização por categorias parece arbitrária; obras classificadas sob "Violência" poderiam facilmente estar em "Desejo", sugerindo que a curadoria não possui uma tese clara sobre como esses sentimentos se intersectam na psique masculina moderna.

Implicações para o ecossistema das artes

O contraste entre o Stedelijk e a mostra "Am I Masculine?", no Noordbrabants Museum, é revelador. Enquanto o Stedelijk busca uma seriedade acadêmica que soa datada, o museu em 's-Hertogenbosch abraça a cultura digital, exibindo playlists do TikTok e a materialidade da moda contemporânea. Esta abordagem mais generosa, que inclui desde ideais gregos até selfies de academia, demonstra que a masculinidade, quando libertada da rigidez dos homens, torna-se um campo de possibilidades estéticas muito mais fértil.

Para colecionadores, curadores e o público em geral, a lição é clara: a relevância cultural não virá da apropriação superficial de jargões da internet. O público exige uma curadoria que entenda a complexidade da performance de gênero sem precisar de um catálogo que explique o óbvio. O sucesso da obra "SweetMeat", de Bart Hess, no Noordbrabants — onde dois homens lutam de forma lúdica e erótica para comer balas coladas em seus corpos — prova que a arte pode ser agressiva, doce e instigante sem recorrer a clichês teóricos.

O que permanece incerto

O que fica em aberto é a capacidade das instituições tradicionais de se adaptarem à velocidade com que as identidades digitais se transformam. Se o museu pretende ser um espelho da sociedade, ele não pode se contentar em ser um comentador tardio de tendências. A ausência de uma representação mais robusta da cultura queer e transmasculina, por exemplo, é uma lacuna que empobrece a discussão sobre o que significa ser homem hoje.

Observar como museus menores, com menos pretensão institucional, conseguem tratar o tema com mais agilidade e menos "desespero por topicalidade" será o próximo passo para entender a relevância dessas instituições. A questão não é se o museu deve abordar a masculinidade, mas se ele está disposto a aceitar que, talvez, a masculinidade precise ser estranha, complexa e, acima de tudo, livre das categorias que tentamos desesperadamente impor sobre ela.

É possível que a verdadeira desconstrução da masculinidade exija menos curadoria e mais coragem para expor a estranheza intrínseca de qualquer identidade, seja ela performada em um museu ou em um fórum online. O desafio para as próximas exposições será encontrar o equilíbrio entre o rigor histórico e a pulsação do presente, sem que a busca pelo engajamento sacrifique a profundidade da obra.

Com reportagem de ARTnews

Source · ARTnews