Trevor Paglen, artista radicado em Nova York e reconhecido por seu trabalho crítico sobre vigilância e inteligência artificial, foi anunciado como o curador da terceira edição da "Zero 10", setor da Art Basel dedicado à arte da era digital. A mostra integrará a edição suíça da feira, agendada para ocorrer entre 17 e 21 de junho. O projeto contará com a participação de galerias internacionais de peso, como Marian Goodman, Hauser & Wirth e Almine Rech, que exibirão obras de nomes como Hito Steyerl e Avery Singer.

Paglen atuará em parceria com o estrategista de arte digital Eli Scheinman, que organizou as duas edições anteriores do setor ao lado de Vincenzo de Bellis, diretor artístico global da Art Basel. A escolha de Paglen, segundo os organizadores, busca trazer um olhar investigativo e artístico para um campo frequentemente isolado do circuito tradicional das artes visuais. A exposição, intitulada "The Condition", propõe um levantamento histórico que abrange sete décadas de práticas baseadas em instruções e computação.

A falácia da divisão entre o digital e o tradicional

O cerne da curadoria de Paglen reside em um argumento provocativo: a ideia de que existe uma fronteira clara entre "arte tradicional" e "arte digital" é uma construção obsoleta. Para o artista, a vasta maioria da produção artística das últimas três décadas é, na prática, nativamente digital. Ele aponta que esculturas contemporâneas são projetadas em softwares como Blender ou ZBrush, enquanto fotógrafos e pintores dependem de ferramentas como o Photoshop para conceber e manipular suas composições.

Ao olhar para o passado, Paglen sugere que a inclinação dos artistas por novas tecnologias não é um fenômeno moderno. Em seu manifesto curatorial, ele recorre a figuras históricas para ilustrar seu ponto, sugerindo que mestres como Caravaggio ou Leonardo da Vinci teriam adotado ferramentas digitais contemporâneas sem hesitação, caso estivessem disponíveis. Essa perspectiva busca desmistificar a resistência do mercado de arte em relação ao digital, tratando-o não como um nicho, mas como a continuidade natural da prática criativa humana.

Uma genealogia da arte computacional

A exposição "The Condition" busca consolidar essa tese ao colocar ícones da arte contemporânea ao lado de pioneiros da tecnologia. Entre os nomes apresentados, destaca-se a húngara Vera Molnár, que iniciou suas experimentações com computadores ainda em 1968. A mostra também resgata obras seminais dos anos 1950, como os experimentos de osciloscópio de Mary Ellen Bute e Ted Nemeth, e a "Oscillation 4" de Ben F. Laposky, situando a arte digital em uma linhagem histórica de longa data.

Com a participação de 20 expositores, esta será a maior edição da iniciativa até o momento. O setor, que estreou na Art Basel Miami Beach em 2025, promete manter um tom reflexivo, ainda que distanciado de momentos mais performáticos ou espetaculares. A curadoria busca, portanto, elevar a discussão técnica para o campo das ideias, conectando práticas que vão desde o uso de código e blockchain até a escultura interativa.

Implicações para o mercado e novos talentos

Para o ecossistema das artes, a curadoria de Paglen sinaliza uma tentativa de legitimação institucional de artistas que operam na intersecção da tecnologia. Scheinman destaca que a mostra introduzirá nomes como o engenheiro e artista DEAFBEEF a colecionadores e curadores de museus. O desafio aqui é evitar que esses artistas sejam confinados a rótulos limitantes, como o de "artista cripto", garantindo que sua produção seja avaliada dentro do contexto mais amplo da história da arte.

Essa abordagem reflete uma tensão crescente no mercado global, onde a proliferação de IA generativa e a desmaterialização da obra de arte forçam instituições a repensar suas categorias. Ao integrar artistas que utilizam blockchain ou código como superfície de trabalho em um ambiente como a Art Basel, a feira busca estabelecer um diálogo necessário sobre a autoria e a natureza da criação na era dos algoritmos.

Perspectivas e o papel do artista na era da IA

O que permanece em aberto é como o mercado de arte reagirá a essa tentativa de dissolução das barreiras tecnológicas. Se a "Zero 10" conseguir consolidar a narrativa de que o digital é, na verdade, a norma, o impacto nas estratégias de aquisição de museus e coleções privadas pode ser significativo nos próximos anos.

Observar a recepção dos colecionadores diante de obras que unem o arcaico e o computacional será fundamental. A questão central, como coloca Paglen, é se o mercado está pronto para aceitar que a arte que vive dentro da tecnologia é, acima de tudo, o espelho das perguntas culturais mais urgentes do nosso tempo.

A curadoria de Paglen e Scheinman na Art Basel não busca apenas exibir obras, mas reconfigurar a própria lente pela qual o mundo da arte interpreta a inovação tecnológica. O sucesso dessa iniciativa poderá definir se o setor digital será finalmente integrado ao cânone da história da arte ou se continuará a orbitar como uma categoria à parte. Com reportagem de ARTnews

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