Houve um tempo em que os carros-conceito eram o material de que sonhos eram feitos. Folhear uma revista automotiva era como abrir uma janela para um futuro de formas impossíveis e tecnologias fantásticas. Hoje, a sensação é outra. Os protótipos desfilam em salões internacionais, mas parecem mais sóbrios, mais próximos da realidade, quase... comportados. A pergunta que paira no ar, e que a publicação The Drive investigou em um documentário com alguns dos maiores nomes do design automotivo, é: o que aconteceu com a ousadia?

O filme entrevista figuras como Ralph Gilles (Stellantis), Sangyup Lee (Hyundai e Genesis) e Tom Peters (ex-GM), e a conclusão é unânime. A culpa não é da falta de criatividade nos estúdios. O problema é que o mundo lá fora mudou. A transição para a eletrificação, as cada vez mais rígidas regulações de segurança e as próprias limitações da engenharia colocaram a imaginação dentro de uma caixa de planilhas e restrições.

O pragmatismo como novo design

Onde antes havia uma folha em branco, hoje há uma plataforma "skateboard" elétrica, com posicionamento fixo de baterias e motores, que dita boa parte da arquitetura do veículo. Onde havia liberdade para esculpir carrocerias radicais, agora há a necessidade de otimizar cada milímetro para eficiência aerodinâmica e atender a rigorosos testes de colisão. O resultado, como apontam os designers ouvidos pelo The Drive, é que o carro-conceito deixou de ser um exercício de pura fantasia para se tornar uma prévia quase final do modelo de produção.

A função mudou. O protótipo não é mais um "e se?" distante, mas um "em breve" calculado. Ele serve para testar a reação do público a uma nova linguagem de design ou a uma nova interface de usuário, mas sempre com um pé fincado na viabilidade comercial e industrial. A ousadia não desapareceu, mas foi canalizada para outros lugares: a experiência de software, a sustentabilidade dos materiais, a reconfiguração do espaço interno permitido pela autonomia.

Talvez a era dos carros-conceito que pareciam naves espaciais tenha de fato ficado para trás. A nova fronteira da imaginação automotiva pode ser menos sobre a forma externa e mais sobre a vivência interna. Ainda assim, fica a questão: em um futuro de carros eficientes, seguros e conectados, qual o espaço que sobra para o assombro e o puramente belo?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Drive