A Casas Bahia reportou um prejuízo líquido de R$ 1,06 bilhão no primeiro trimestre de 2026, um reflexo direto da pressão exercida pelas despesas financeiras em um ambiente de juros elevados. O resultado, embora desafiador, ocorre em um contexto onde a companhia busca equilibrar a recuperação operacional com a gestão de um passivo financeiro robusto.

Segundo o CFO Élcio Ito, em entrevista ao Money Times, a empresa mantém a execução do plano de transformação iniciado há três anos. A tese central da gestão é que a rentabilidade deve vir da eficiência interna e da otimização de canais, independentemente das oscilações da taxa Selic, que impactou negativamente o resultado financeiro no período.

O papel do crediário na estratégia

O crediário permanece como o pilar central da Casas Bahia, embora a concessão de crédito esteja operando sob critérios de rigor extremo. A empresa tem optado por sacrificar parte do volume de vendas em favor da preservação da qualidade de sua carteira, evitando o aumento da inadimplência em um cenário de alto endividamento das famílias brasileiras.

Além de ser uma ferramenta de vendas, o crediário atua como um catalisador para a comercialização de serviços de margem elevada, como garantias estendidas e seguros. Essa estratégia de "venda casada" de serviços é vista pela diretoria como essencial para sustentar a margem operacional, compensando a pressão de custos no varejo físico.

Expansão via marketplaces

Outro movimento estratégico relevante é a integração da Casas Bahia com grandes plataformas de e-commerce, como Mercado Livre, Amazon e Shopee. A varejista utiliza esses marketplaces para ampliar seu alcance, aproveitando a capilaridade logística e a força da marca em categorias de bens duráveis como eletrodomésticos e móveis.

Ito destaca que a parceria com o Mercado Livre, iniciada no final de 2025, tem sido a mais assertiva. Curiosamente, a presença nesses canais não gerou a canibalização das vendas nos canais próprios da marca; pelo contrário, o CFO observa um aumento no tráfego do site da Casas Bahia, sugerindo que o ecossistema digital da empresa está ganhando tração e relevância.

Desafios macroeconômicos e operacionais

O resultado do trimestre, que apresentou receita líquida de R$ 7,4 bilhões — um crescimento de 6,1% na comparação anual —, mostra que a operação de varejo possui fôlego. Contudo, o custo da dívida, impulsionado por um CDI médio de 14,86%, continua sendo o principal obstáculo para a companhia atingir o lucro líquido.

A gestão reconhece que o desempenho das lojas físicas enfrenta dificuldades, mas aponta que a base de comparação é elevada e que o ganho de participação de mercado no online compensa parte dessa retração. A empresa segue focada em ser o principal player de eletrodomésticos e móveis do país, equilibrando a presença física e digital.

Perspectivas de longo prazo

O que permanece em aberto é a velocidade com que a eficiência operacional conseguirá superar a inércia do custo financeiro. O mercado observará se a disciplina na concessão de crédito será suficiente para manter as margens saudáveis caso o cenário de consumo da baixa renda continue pressionado por mais tempo.

A trajetória da Casas Bahia nos próximos trimestres dependerá da capacidade da empresa em converter o crescimento do GMV em lucro operacional consistente. A estratégia de não depender exclusivamente da política monetária sugere uma busca por resiliência estrutural, mas o sucesso desse plano ainda está sob teste.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times