A ideia de adquirir uma casa por um valor simbólico em vilarejos remotos de regiões como Cuenca, na Espanha, pode soar como um sonho para quem busca fugir do agito urbano e encontrar um refúgio acessível. No entanto, a realidade por trás dessas pechinchas revela um cenário complexo, onde o preço de compra é apenas o ponto de partida para um processo de revitalização que pode se estender por anos e demandar um investimento financeiro considerável.

O caso de Irene Vila, que comprou uma casa por 9.000 euros em um vilarejo de sua infância, ilustra essa dinâmica. A propriedade, que estava fechada e com o telhado danificado, permitiu uma negociação vantajosa. Contudo, Irene estima que a obra de reforma levará entre três e quatro anos para ser concluída. Essa situação não é isolada: quase metade das moradias em vilarejos com menos de 10.000 habitantes na Espanha estão vazias, totalizando mais de 4 milhões de propriedades, segundo dados do INE. Muitas delas são estruturas inacabadas ou em avançado estado de deterioração, com preços que escondem a necessidade de intervenções profundas.

O Custo Oculto da Reforma

O preço médio do metro quadrado em Cuenca é de 896 euros, com variações significativas entre os municípios. Em San Clemente, o valor é de 583 euros, enquanto em outros vilarejos mais remotos, o metro quadrado pode custar a partir de 344 euros. No entanto, o valor de compra, como os 9.000 euros pagos por Irene, raramente reflete o custo final. A reforma do telhado, por exemplo, um dos primeiros e mais críticos itens a serem reparados em casas antigas, pode variar entre 60 e 150 euros por metro quadrado. Para uma casa de 100 metros quadrados, isso representa um gasto entre 6.000 e 15.000 euros, podendo superar o valor original do imóvel, especialmente se forem utilizados materiais de maior qualidade, como a ardósia natural.

Desafios Estruturais e de Mão de Obra

Uma reforma integral em uma casa de vila pode custar entre 500 e 1.200 euros por metro quadrado, segundo especialistas. Para uma propriedade de 100 metros quadrados, o investimento total pode variar entre 50.000 e 120.000 euros, o que equivale a seis ou treze vezes o preço de compra. Se a reforma envolver a estrutura da casa, são necessários projetos e licenças adicionais, que representam uma porcentagem significativa do orçamento. Além disso, a escassez de mão de obra qualificada na construção civil, especialmente em áreas rurais, agrava o cenário. Muitos profissionais estão sobrecarregados, com longas listas de espera, e alguns até recusam novos trabalhos, priorizando sinistros de seguradoras ou projetos maiores.

Implicações para o Mercado Rural

A viabilidade de adquirir e reformar imóveis em vilarejos remotos está intrinsecamente ligada à disponibilidade de ajudas governamentais. Programas como os oferecidos pela Castilla-La Mancha, Navarra ou La Rioja visam incentivar a compra e a permanência de jovens nessas áreas, cobrindo parte dos custos de aquisição ou reforma. No entanto, o valor dessas ajudas, embora significativo, muitas vezes não é suficiente para cobrir a totalidade das despesas de uma revitalização completa. A falta de infraestrutura e serviços básicos, somada à dificuldade de acesso a crédito e à mão de obra, são fatores que precisam ser considerados por quem sonha com a vida no campo.

O Ritmo da Paciência

A compra de uma casa barata em uma área remota exige, acima de tudo, paciência e um planejamento financeiro realista. O ritmo de Irene, que realiza pequenas reformas por conta própria enquanto aguarda a disponibilidade de especialistas para as obras maiores, é um exemplo de como conciliar os desejos com a realidade. A chave pode estar em não ter pressa, adaptando o processo às próprias possibilidades e aproveitando as ajudas disponíveis. O verdadeiro valor dessas propriedades não está apenas no preço de compra, mas na capacidade de transformá-las em lares funcionais e habitáveis, um processo que demanda tempo, recursos e uma boa dose de resiliência.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka