Um ambicioso centro de dados em desenvolvimento em Utah, conhecido como Stratos, promete consumir uma quantidade colossal de energia: 9 gigawatts (GW) quando em plena operação. Para contextualizar, esse volume é mais que o dobro do consumo anual de eletricidade de todo o estado de Utah. O plano para alimentar essa infraestrutura massiva, que envolve o uso de usinas de gás natural, conforme proposto inicialmente, acendeu um alerta sobre os potenciais impactos ambientais e de saúde pública. Uma análise recente encomendada pelo Natural Resources Defense Council (NRDC) e conduzida pela EmPower Analytics Group estima que essa dependência de gás natural poderia resultar em até 45 mortes prematuras anualmente e gerar danos à saúde na ordem de US$ 690 milhões por ano.

Impacto da Poluição do Ar e Danos à Saúde

As usinas de gás natural liberam níveis perigosos de poluentes atmosféricos, incluindo material particulado fino (PM2.5). Essas partículas minúsculas, ao serem inaladas, podem penetrar nos pulmões e na corrente sanguínea, elevando o risco de condições graves como asma, câncer de pulmão, ataques cardíacos e derrames. Michael Cork, fundador e CEO da EmPower Analytics Group, ressalta que a ciência por trás dessa ligação entre poluição e impactos na saúde é robusta, baseada em décadas de pesquisa. Embora a escala do Stratos seja inédita, os mecanismos de dano não são novos. A análise projeta que, se operando inteiramente a gás, o centro de dados poderia emitir até 3.140 toneladas de PM2.5 anualmente. Essa poluição não se limitaria a Utah, mas se espalharia por estados vizinhos como Idaho, Wyoming e Colorado, e poderia alcançar até mesmo Illinois. Os impactos estimados variam de cinco a 45 mortes prematuras por ano, além de um aumento na incidência de doenças cardíacas, problemas respiratórios, novos casos de asma e ataques cardíacos não fatais, resultando em mais internações hospitalares, dias de trabalho perdidos e faltas escolares.

Cenários de Geração e Custos Econômicos

A EmPower Analytics avaliou dois cenários principais de geração de energia a gás para o Stratos: uma primeira fase de 3 GW e a projeção de capacidade total de 9 GW. Além disso, considerou duas tecnologias de geração a gás: a moderna ciclo combinado, associada a menores danos à saúde, e motores de combustão interna reciprocantes a gás, que, segundo a análise, poderiam multiplicar os danos em até cinco ou seis vezes. Independentemente da tecnologia específica utilizada, o relatório conclui que "todo cenário a gás prejudica a saúde". Os danos econômicos anuais estimados, decorrentes dos impactos na saúde, podem variar de US$ 75 milhões a US$ 690 milhões para o projeto completo de 9 GW. Esses valores se referem a apenas um ano de operação, e os prejuízos se repetiriam e acumulariam ao longo da vida útil da instalação, que não se espera ser de apenas um ano.

Respostas e Questionamentos sobre a Energia

O projeto Stratos já enfrentou protestos devido ao seu potencial uso de água e impactos na poluição. Em resposta a algumas dessas preocupações, o governador de Utah, Spencer Cox, declarou que o projeto "nunca" seria totalmente alimentado por gás natural. Ele sugeriu que as fases subsequentes deveriam utilizar energia nuclear, geotérmica, solar e outras tecnologias. No entanto, mesmo a primeira fase de 3 GW, se depender de gás natural, já apresenta riscos significativos, com projeções de até 15 mortes prematuras anuais e danos econômicos de até US$ 230 milhões. A O’Leary Digital, desenvolvedora do Stratos, não comentou o relatório ou sua estrutura de energia esperada. A percepção pública ainda não associa centros de dados a fontes de poluição tão danosas quanto, por exemplo, usinas de carvão. Contudo, a análise compara essas instalações a "usinas de energia com servidores acoplados", buscando equiparar a gravidade da situação.

Perguntas em Aberto e Perspectivas Futuras

Os detalhes finais sobre o tamanho do projeto e as tecnologias de geração de energia a serem empregadas ainda não foram totalmente confirmados pelos desenvolvedores do Stratos. A análise da EmPower Analytics sugere que a escolha tecnológica pode alterar significativamente a magnitude dos danos à saúde, mas o ponto central é que qualquer cenário que envolva gás natural para uma instalação desta escala resultará em prejuízos à saúde. Resta saber se as alternativas energéticas mencionadas pelo governador Cox serão implementadas em tempo e escala suficientes para mitigar os riscos associados à fase inicial a gás. A transparência sobre os planos energéticos futuros e a adoção de fontes de energia limpa e renovável serão cruciais para determinar o verdadeiro impacto ambiental e social do Stratos a longo prazo. A questão que permanece é se o desenvolvimento tecnológico em centros de dados pode avançar sem comprometer a qualidade do ar e a saúde das comunidades próximas e distantes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company