Enquanto centenas de milhares de trabalhadores nos Estados Unidos viram seus empregos serem eliminados em 2026, a CEO da Torani, Melanie Dulbecco, apresenta uma filosofia de gestão que desafia a norma do mercado. Para ela, demissões são uma "escolha", e não um caminho inevitável diante de turbulências econômicas. A empresa de xaropes de sabores, com 101 anos de história, tem como prioridade a manutenção de seu quadro de funcionários, mesmo em períodos de alta incerteza, como demonstrou durante a pandemia de COVID-19.
A filosofia de "escolha" em demissões
Dulbecco argumenta que, a menos que uma empresa esteja à beira da falência, a decisão de demitir funcionários é, em última instância, uma escolha financeira que pode comprometer a resiliência e a capacidade de recuperação de uma organização. "Eu entendo se uma empresa está passando por falência e tem que fazer escolhas extremamente difíceis. Caso contrário, acho que é um exercício financeiro que não considera como você será resiliente ou recuperará o ímpeto – porque você faz isso com uma equipe", disse ela em entrevista ao Business Insider. Essa abordagem contrasta fortemente com a tendência observada no mercado, onde cortes de pessoal têm sido uma resposta comum a desafios econômicos e à rápida implementação de tecnologias como a inteligência artificial.
Torani na prática: resiliência e investimento em pessoas
Durante a pandemia, a Torani tomou medidas para preservar empregos. Ao realocar seu escritório para um novo local em San Leandro em março de 2020, o objetivo explícito era reter 100% de seus trabalhadores. A empresa chegou a mapear a localização de seus funcionários para encontrar um ponto de acesso razoável para a maioria. Diante da incerteza financeira e de um grande investimento na fábrica, a Torani optou por reduzir outras despesas, como marketing e publicidade, suspender viagens e revisar orçamentos. "Com incerteza financeira significativa e um grande investimento na Fábrica de Sabores em andamento, perguntamo-nos: Que decisões nos deixarão orgulhosos quando sairmos do outro lado? Comprometemo-nos a atravessar a crise juntos, sem demissões ou licenças", declarou Dulbecco. Essa estratégia permitiu à Torani não apenas superar a queda inicial nas vendas, mas também pivotar para o varejo online e de supermercados, encerrando 2020 com um aumento de 15% na receita anual.
O mercado de trabalho e a ascensão da IA
Os dados do mercado de trabalho americano pintam um quadro diferente. Nos primeiros nove meses de 2026, os empregadores anunciaram 573.195 cortes de empregos, segundo análise da Challenger, Gray & Christmas. O ano de 2025 registrou 946.426 cortes, e 2024 viu 1,2 milhão de demissões, um aumento de 58% em relação ao ano anterior, atingindo os níveis de 2008. O setor de tecnologia, em particular, foi duramente atingido, com cerca de 154.000 demissões anunciadas no último ano, um aumento de 15% em relação a 2024. A inteligência artificial emergiu como um fator significativo, sendo responsável por planos de demissão em massa. No entanto, a Torani também tem aproveitado a tecnologia, utilizando automação para trabalhos manuais e IA para pesquisa de mercado e previsão de demanda, sem que isso se traduza em cortes. "Nossa equipe não se preocupa com coisas como IA porque confia que iremos automatizar e elevar o trabalho, que nunca faremos nada que esmague oportunidades para as pessoas e que estamos cuidando do sucesso de todos", afirmou a CEO.
Um modelo sustentável?
A abordagem da Torani, que combina investimento em pessoas com crescimento consistente – a empresa tem uma média de 20% de crescimento anual há 35 anos e projeta exceder US$ 800 milhões em receita este ano –, sugere que desempenho e valorização de funcionários não são prioridades concorrentes, mas sim complementares. A longevidade e o sucesso da empresa parecem validar a ideia de que a resiliência corporativa pode ser construída sobre a estabilidade de sua força de trabalho. A questão que permanece é se esse modelo, embora admirável, pode ser replicado em larga escala por empresas de outros setores e portes, ou se permanecerá uma exceção.
A filosofia de Melanie Dulbecco na Torani oferece um contraponto às práticas de gestão predominantes, convidando a uma reflexão sobre o verdadeiro custo e a necessidade das demissões em massa. A capacidade de inovar e crescer sem sacrificar a equipe pode ser a chave para uma sustentabilidade corporativa mais profunda. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune



