A aposentadoria deveria ser a volta da vitória para um CEO, mas para a maioria, o primeiro ano é um choque de realidade. Um estudo do Boston Consulting Group (BCG) com ex-CEOs de empresas com faturamento superior a US$ 1 bilhão revelou um dado contundente: 60% se sentem insatisfeitos com a transição no primeiro ano após deixarem o cargo.
O fenômeno, reportado pela Fortune, não é de ordem financeira. Trata-se de um vácuo de identidade e propósito que se instala quando a agenda intensa e o poder de decisão desaparecem. A dificuldade em se desconectar do C-Suite expõe uma falha crítica na preparação dos líderes mais poderosos do mercado: o planejamento para o 'depois'.
A crise de identidade pós-comando
Para muitos executivos, o cargo de CEO não é apenas um trabalho, mas a própria identidade. A transição para uma rotina menos estruturada gera um profundo abalo emocional. Christine Barton, líder da prática de consultoria para CEOs da BCG na América do Norte, questiona a motivação de líderes que retornam de uma aposentadoria para assumir novos postos de comando: seria por genuína criação de valor ou por “medo ou vaidade”?
O caso de Mary Dillon, que após uma carreira de sucesso na Ulta Beauty saiu da aposentadoria para liderar a Foot Locker, ilustra a questão. Ela admitiu não ter percebido “o quanto sentiria falta de ter uma grande coisa para focar”. A questão não é a falta do que fazer, mas a ausência de um desafio central que organize a vida e o propósito.
Construindo a vida pós-corporativa
O estudo da BCG sugere que a solução não é a inatividade, mas a intencionalidade. A construção de um “portfólio de carreira” — com três a quatro atividades significativas, como participação em conselhos, mentoria ou ensino — parece ser o caminho para um equilíbrio entre se sentir útil e não estar sobrecarregado. A chave é uma autoavaliação honesta sobre o que realmente se deseja para a próxima fase.
Há um papel para as empresas nesse processo. A reportagem aponta para um nicho crescente de coaching executivo focado especificamente em preparar líderes para uma aposentadoria ativa e para a construção de seu legado. No entanto, a solução mais estrutural, segundo a BCG, é a mesma que garante a saúde da empresa: desenvolver um pipeline robusto de sucessão interna, tornando desnecessário ter que buscar um CEO de volta ao jogo.
A pesquisa mostra que, superado o choque inicial, 90% dos ex-CEOs se dizem satisfeitos após o primeiro ano. O desafio, portanto, está em atravessar essa transição abrupta. Para um líder acostumado a gerenciar trimestres e planos de longo prazo, o projeto mais complexo talvez seja o de desenhar a própria vida quando o crachá é devolvido.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





