A China consolidou uma posição de liderança na expansão da energia nuclear, quase duplicando sua frota desde 2016 e alcançando cerca de 60 gigawatts de capacidade total. Enquanto o setor nuclear ocidental enfrenta dificuldades para erguer novos projetos, Pequim mantém um ritmo de construção acelerado, com o objetivo de ultrapassar a capacidade combinada dos Estados Unidos e da União Europeia até 2030.

Segundo reportagem do MIT Technology Review, a estratégia chinesa baseia-se em uma lógica de eficiência fabril aplicada a reatores de água pressurizada de escala gigawatt. Em contraste, o Ocidente, liderado por iniciativas nos EUA, concentra seus investimentos em reatores modulares pequenos (SMRs), apostando que a redução da complexidade e do custo inicial será o diferencial para retomar o fôlego da indústria.

A padronização como vantagem competitiva

O sucesso chinês na aceleração do cronograma de obras não é fruto de tecnologia disruptiva, mas de uma gestão de projetos altamente padronizada. Ao construir reatores em lotes de seis ou mais unidades, o país aproveita economias de escala que reduzem drasticamente o tempo médio de construção, que hoje varia entre cinco e sete anos na China, comparado à média global de nove anos.

Este modelo de uniformidade no design e no licenciamento permite que a indústria nuclear chinesa opere com a previsibilidade de uma linha de montagem. A leitura aqui é que o Estado chinês não apenas financia a infraestrutura, mas impõe uma disciplina regulatória que elimina as incertezas e as mudanças de projeto que, no Ocidente, frequentemente elevam os custos e paralisam construções por mais de uma década.

A aposta ocidental nos microreatores

Nos Estados Unidos, a esperança de revitalização do setor reside na descentralização. Com o apoio de programas do Departamento de Energia, empresas como a Antares buscam validar tecnologias de microreatores que prometem menor custo de entrada. Recentemente, a startup alcançou o marco de criticidade, embora o sistema ainda não produza eletricidade, evidenciando o estágio embrionário dessa tecnologia.

A lógica por trás dos SMRs é que, ao serem fabricados fora do canteiro de obras, eles eliminariam os riscos financeiros associados aos projetos de megaescala. Contudo, analistas apontam que, embora o custo de capital inicial seja menor, o custo por unidade de energia produzida tende a ser superior ao dos grandes reatores, criando um dilema sobre a viabilidade comercial a longo prazo em mercados de alta demanda.

Tensões e implicações globais

A disparidade entre as abordagens cria uma tensão clara no mercado global de energia. Enquanto a China prioriza o volume para sustentar seu crescimento industrial, o Ocidente tenta equilibrar a inovação tecnológica com a necessidade de descarbonização. O interesse de empresas de tecnologia em financiar reatores para centros de dados reforça a urgência, mas a dependência de tecnologias ainda não testadas em escala comercial coloca o Ocidente em uma posição de desvantagem temporal.

Para o Brasil e outros mercados emergentes, a disputa sinaliza que a escolha entre escala e modularidade não é apenas técnica, mas geopolítica. Países que necessitam de suprimento constante e barato de eletricidade observarão de perto se a padronização chinesa ou a inovação modular ocidental entregará resultados práticos primeiro.

Incertezas e o futuro da matriz nuclear

O grande desafio para os próximos anos reside na capacidade de entrega. Enquanto a China demonstra que grandes reatores podem ser construídos com rapidez, o Ocidente precisa provar que seus projetos-piloto podem ser escalados e conectados à rede de forma eficiente. A incerteza sobre a viabilidade econômica dos SMRs permanece como o maior risco para a estratégia ocidental.

Observar a evolução da Linglong-1, o primeiro pequeno reator chinês, será crucial. Se Pequim conseguir dominar tanto a escala quanto a modularidade, o fosso tecnológico e de infraestrutura entre o Oriente e o Ocidente poderá se tornar ainda mais difícil de transpor, consolidando uma nova ordem na energia nuclear global.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Technology Review