A indústria chinesa de semicondutores está traçando um caminho deliberadamente distinto da corrida tecnológica protagonizada por TSMC, Intel e Samsung. Enquanto o Ocidente e seus aliados focam na miniaturização extrema para alcançar os 2 nanômetros, a China reforça sua capacidade produtiva em nós maduros e processos especializados. Segundo declarações de Richard Chang Rujing, fundador da Semiconductor Manufacturing International Corp (SMIC), a percepção de sucesso limitada à fronteira tecnológica é um equívoco que ignora a realidade do mercado global.
O movimento chinês não é apenas uma reação à impossibilidade de acessar equipamentos de litografia ultravioleta extrema (UVE) da ASML. A leitura aqui é que a estratégia reflete uma análise pragmática de volume e demanda. Com a SMIC operando atualmente no patamar dos 7 nm, o foco chinês migrou para garantir que a infraestrutura de chips de 28 nm e tecnologias similares sustente a vasta base industrial do país, desde eletrônicos de consumo até a indústria automotiva.
A lógica do volume sobre a fronteira
Vale notar que os nós avançados, embora vitais para a computação de alto desempenho e inteligência artificial, representam menos de 20% do mercado global de circuitos integrados por volume. A grande maioria da demanda mundial — mais de 80% — reside em chips maduros. Ao dominar esse segmento, a China não apenas blinda sua economia contra restrições externas, mas também se posiciona como o fornecedor indispensável para produtos de massa.
Empresas como Hua Hong Semiconductor e China Resources Microelectronics exemplificam essa transição. O investimento massivo, como o projeto de 4,6 bilhões de dólares da Beijing Yandong Microelectronics para uma planta focada em 28 nm, sinaliza que a rentabilidade e a resiliência superam, neste momento, a necessidade de competir na ponta da litografia. A China está, essencialmente, construindo um fosso competitivo baseado em escala e disponibilidade.
O impacto das exportações chinesas
Os números recentes reforçam a eficácia dessa abordagem. Nos primeiros dois meses de 2026, a China registrou um salto de 72,6% nas exportações de circuitos integrados em comparação ao mesmo período de 2025, totalizando 43,3 bilhões de dólares. Esse crescimento, que supera significativamente a média de exportações do país, indica que a demanda externa por chips produzidos na China permanece aquecida, independentemente da sofisticação tecnológica dos componentes.
Essa dinâmica sugere que a estratégia chinesa de chips maduros atua como um estabilizador econômico. Ao inundar o mercado com produtos essenciais, o país garante que sua indústria de semicondutores continue gerando receita e mantendo relevância global, mesmo diante de um cenário geopolítico adverso que tenta limitar seu acesso a tecnologias de ponta.
Tensões na cadeia de suprimentos
Para reguladores e competidores, a aposta chinesa levanta questões sobre a futura dependência global. Se a China consolidar o controle sobre a oferta de chips maduros, o poder de barganha em setores críticos como o automotivo pode sofrer uma mudança drástica. A tensão entre a busca por autossuficiência chinesa e a interdependência das cadeias globais de suprimentos continuará sendo um ponto de fricção central para as políticas comerciais do Ocidente.
Além disso, o sucesso chinês em chips maduros força um dilema para os fabricantes ocidentais: focar apenas no alto valor agregado dos nós avançados ou investir na capacidade de volume que a China domina. A competitividade futura dependerá de como cada bloco decidirá equilibrar essas duas frentes, que, embora distintas, são complementares na economia digital moderna.
O futuro da soberania tecnológica
O que permanece incerto é se a China conseguirá, a longo prazo, saltar para os nós avançados enquanto mantém seu domínio nos maduros. A restrição de acesso a equipamentos críticos ainda impõe um teto tecnológico, e a eficácia dessa estratégia de "dois trilhos" dependerá da capacidade de inovação interna em design e materiais.
Observar a evolução dos investimentos em plantas de 28 nm e a resposta das cadeias de suprimentos globais será fundamental. A China provou que o sucesso no setor não exige apenas vencer a corrida dos nanômetros, mas sim garantir que o fluxo de componentes básicos para o mundo continue passando por suas fábricas.
O tabuleiro dos semicondutores não se resume a quem atinge o menor tamanho de transistor, mas a quem detém a infraestrutura que mantém o mundo conectado. A China aposta que, ao controlar a base da pirâmide tecnológica, ela terá o poder de ditar o ritmo da próxima década industrial, independentemente dos avanços nos nós de 2 nm.
Com reportagem de Xataka
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