A centenas de metros de profundidade, em uma antiga mina de cobre na cidade chinesa de Daye, pesquisadores já colhem alface sob luz artificial. O experimento, longe de ser um caso isolado, é a ponta de lança de uma ambiciosa estratégia governamental para transformar milhares de minas que serão desativadas até 2030 em fazendas subterrâneas. Iniciativas semelhantes, e ainda mais profundas, também estão em andamento no Reino Unido.
Segundo reportagem do jornal espanhol El Confidencial, a proposta vai além da simples produção de alimentos. A leitura aqui é que se trata de uma reconversão estratégica de um passivo ambiental e industrial em um ativo de segurança alimentar. Em um mundo de crescente instabilidade climática, a capacidade de cultivar alimentos em ambientes totalmente controlados e imunes a secas, enchentes ou pragas se torna uma vantagem competitiva e de soberania.
Do passivo ao ativo
A lógica por trás da agricultura subterrânea é a otimização de recursos. Em vez de construir do zero complexas e caras fazendas verticais, o plano chinês propõe o reaproveitamento da vasta infraestrutura já existente nas minas: túneis, redes elétricas, sistemas de ventilação e acesso a fontes de água. O custo de entrada é, portanto, significativamente menor. O subsolo oferece um ambiente naturalmente estável, com temperatura constante que pode ser ajustada com energia geotérmica, reduzindo a dependência de climatização artificial.
O controle é a palavra-chave. A ausência de luz solar é contornada com sistemas de LED customizados para cada tipo de cultura, e a irrigação pode ser feita com precisão. Um dos aspectos mais inovadores da proposta, descrita na revista científica China Mining Magazine, é o potencial de tratar e reutilizar a água contaminada da própria mina para irrigar certas culturas, transformando um problema de poluição em parte da solução agrícola.
Um laboratório para o futuro
O governo de Pequim já fechou cerca de 12.000 minas na última década e planeja desativar outras milhares até 2030, liberando um volume estimado de 7,2 bilhões de metros cúbicos de espaço subterrâneo. A proposta, no entanto, não visa a produção em massa no curto prazo. O objetivo imediato é criar uma vasta “plataforma experimental de engenharia agrícola”.
Essas minas-laboratório servirão para estudar e otimizar o cultivo em ambientes fechados, testando variáveis de luz, temperatura, umidade e nutrientes. É um projeto de pesquisa e desenvolvimento em escala nacional, com implicações que vão muito além da agricultura terrestre. Os próprios pesquisadores chineses apontam que o conhecimento gerado ali poderá, eventualmente, dar suporte à exploração espacial, servindo como análogo para a produção de alimentos em futuras bases na Lua ou em Marte.
Enquanto a produção em massa ainda é uma visão de futuro, o movimento sinaliza uma mudança fundamental na forma de encarar infraestruturas obsoletas. O que antes era o fim da linha para uma indústria extrativa pode se tornar o berço de um novo modelo de resiliência agrícola, cujas lições podem redefinir o que significa cultivar alimentos no século XXI.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · El Confidencial — Tech





