O programa espacial da China demonstrou um ritmo operacional intenso no último fim de semana, com dois lançamentos bem-sucedidos em menos de 48 horas. O primeiro foi o voo inaugural do foguete Longa Marcha 12, um novo vetor de médio porte, que decolou do centro de lançamento costeiro de Wenchang. A segunda missão, operada por um foguete Longa Marcha 2C a partir de Jiuquan, colocou em órbita o satélite Rashid-4 para os Emirados Árabes Unidos.

As operações ocorreram pouco tempo após uma falha no lançamento de um foguete Longa Marcha 7A, um evento que poderia ter retardado o cronograma em outros programas espaciais. A rápida sucessão de lançamentos, no entanto, aponta para a resiliência e a profundidade da capacidade industrial e logística da China no setor. A combinação de um voo de teste para um novo hardware e a prestação de um serviço comercial para um cliente internacional em um intervalo tão curto sublinha a dupla ambição de Pequim: avançar sua própria tecnologia enquanto se estabelece como um parceiro global confiável para acesso ao espaço.

Um novo vetor e a resiliência do programa

O Longa Marcha 12 representa uma adição estratégica ao portfólio de veículos de lançamento da China. Utilizando uma combinação de querosene e oxigênio líquido, o foguete de dois estágios é projetado para preencher uma lacuna de capacidade para missões de médio porte, incluindo a implantação de satélites em órbitas baixas e síncronas com o sol. O voo inaugural transportou o satélite de teste Hongtu-1 01, descrito como um projeto para validação de tecnologias de sensoriamento remoto comercial. O lançamento a partir de Wenchang, na ilha de Hainan, é significativo por permitir trajetórias sobre o mar, mitigando riscos para áreas povoadas em terra.

A capacidade de prosseguir com um lançamento inaugural tão perto de uma falha em outra família de foguetes sugere um alto grau de compartimentalização e confiança no programa. Enquanto a investigação sobre a anomalia do Longa Marcha 7A continua, a Administração Espacial Nacional da China (CNSA) não demonstrou hesitação em avançar com outras missões, indicando que as causas da falha foram isoladas e não afetam a confiabilidade de outros sistemas. Essa resiliência é fundamental para manter a cadência necessária para construir e manter grandes constelações de satélites, um dos objetivos estratégicos do país.

Diplomacia espacial e ambições comerciais

O segundo lançamento do fim de semana, o do satélite Rashid-4, destaca outra faceta da estratégia espacial chinesa: a diplomacia e o comércio. O satélite de observação da Terra foi desenvolvido para o Mohammed bin Rashid Space Centre (MBRSC), a agência espacial dos Emirados Árabes Unidos, uma entidade que tem acelerado seus investimentos e capacidades no setor. Para os EAU, a parceria com a China oferece uma via de acesso ao espaço para seus ativos soberanos, diversificando suas opções para além dos provedores ocidentais.

Para a China, esses lançamentos para clientes internacionais são mais do que apenas transações comerciais. Eles representam uma ferramenta de soft power, construindo laços tecnológicos e estratégicos com nações em desenvolvimento e emergentes. Ao oferecer serviços de lançamento competitivos, a China se posiciona como uma alternativa viável no mercado global, especialmente para países que buscam autonomia estratégica ou que podem enfrentar restrições no acesso a tecnologias americanas ou europeias. Essa abordagem complementa os esforços domésticos para fomentar um ecossistema espacial comercial, como indicado pela carga útil do próprio Longa Marcha 12.

Os dois eventos, vistos em conjunto, pintam um quadro de um programa espacial que opera em múltiplas frentes simultaneamente. A capacidade de inovar em hardware, manter um ritmo de lançamento agressivo apesar de contratempos e, ao mesmo tempo, atender a clientes internacionais, solidifica a posição da China como um dos atores centrais na corrida espacial do século 21.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · SpaceNews