Uma nova exposição no New Museum de Nova York, intitulada “New Humans: Memories of the Future”, propõe uma viagem especulativa sobre o futuro do corpo humano e a figura do ciborgue. Contudo, ao fazê-lo, parece ter deixado de fora justamente quem vive essa realidade no presente: as pessoas com deficiência, cujas vidas são mediadas por tecnologias como bombas de insulina, implantes cocleares e marca-passos.
Segundo uma crítica contundente publicada pela revista ARTnews, a mostra falha em dialogar com o vibrante campo dos estudos sobre deficiência e seu movimento artístico. A tese aqui é que, ao buscar um futuro idealizado, a curadoria acabou por apresentar uma visão anacrônica, que ignora as complexidades e a própria definição do que significa ser um híbrido de humano e máquina no século 21.
Uma visão higienizada do futuro
O problema central apontado pela análise não é apenas a omissão de artistas com deficiência, mas um aparente desconhecimento de décadas de produção acadêmica e cultural sobre o tema. A crítica observa que os verdadeiros ciborgues não estão em futuros distópicos ou utopias de ficção científica, mas no cotidiano. A exposição, no entanto, parece não ter lido os principais textos sobre o assunto, resultando na repetição de tropos capacitistas.
Exemplos dessa desconexão são concretos. Uma videoinstalação que satiriza um medicamento antipsicótico utiliza cenas estroboscópicas que a tornam inacessível para pessoas com certas sensibilidades neurológicas. Em um texto de parede, os curadores usam o termo “differently abled” (“diferentemente capaz”), um eufemismo amplamente considerado condescendente pela comunidade da deficiência. A escolha sugere uma falta de pesquisa básica, um deslize que em um debate tão consolidado soa quase como uma decisão editorial.
Entre a tragédia e a transcendência
Quando a deficiência é abordada, ela frequentemente aparece sob a ótica da tragédia ou da superação. A reportagem da ARTnews destaca como a exposição recorre a uma estrutura sentimental, como em uma escultura de órteses infantis que tentam se levantar e caem repetidamente, convidando à pena em vez da reflexão. O único trabalho proeminente de um artista com deficiência, Donald Rodney, é um arquivo digital sobre sua vida e obra, mas focado em sua morte, reforçando uma narrativa de finitude e não de vivência.
Essa abordagem perde a oportunidade de um debate mais profundo. A história da tecnologia está repleta de inovações que nasceram de necessidades ligadas à deficiência — do telefone aos teclados — e que, ao serem absorvidas pelo mercado de massa, tiveram suas origens apagadas. A exposição opta por um futuro de corpos otimizados e transcendentes, ecoando ideais do século 20, em vez de explorar a realidade “confusa, com pus e entranhas”, como descreve a crítica, da corporalidade mediada pela tecnologia.
No fim, a mostra sobre “novos humanos” parece mais interessada em especulações míticas do que nos corpos reais e suas adaptações. A discussão sobre o futuro da humanidade, neste caso, soa incompleta por ignorar que o futuro ciborgue já chegou para muitos. Ele apenas não está distribuído de forma homogênea, nem foi convidado para a exposição.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





