Em 1905, o empresário Ernesto Tornquist introduziu gamos provenientes da Espanha e Polônia em sua propriedade próxima à Sierra de la Ventana, na província de Buenos Aires. A intenção era puramente decorativa, para embelezar seus jardins. No entanto, o que começou como um projeto paisagístico rapidamente se transformou em um problema ecológico de larga escala.
O Salto do Jardim para o Ecossistema
Os gamos, com sua notável capacidade de adaptação, não permaneceram confinados às terras de Tornquist. Em poucas décadas, especialmente a partir dos anos 1930, a espécie começou a ser liberada em cotos de caça por todo o país. Essa disseminação, impulsionada pela demanda de caçadores, levou à sua proliferação em regiões distantes de seu ponto de origem. Atualmente, o gamo figura na lista oficial de espécies exóticas invasoras da Argentina, classificado como de "uso controlado", permitindo sua caça e criação sob regulamentação.
Impacto Ecológico e Mudança de Ecossistemas
A presença do gamo em liberdade em três províncias argentinas — Buenos Aires, Neuquén e Río Negro — já demonstra efeitos concretos nos ecossistemas nativos. Na Ilha Victoria e na Península Huemul, onde a população é mais expressiva, os cervídeos foram associados à quase erradicação do maqui no final dos anos 1980. Padrões alimentares seletivos, que incluem o cipreste da cordilheira e outras espécies lenhosas nativas, facilitam a invasão de outras espécies exóticas, como os pinos, alterando a composição vegetal e a biodiversidade local.
A Resiliência Histórica do Gamo
A capacidade de adaptação e expansão do gamo não é um fenômeno recente. Estudos genéticos indicam que a espécie demonstrou resiliência histórica, reconquistando ecossistemas após períodos glaciais, com populações remanescentes restritas a áreas como a Anatólia e os Bálcãs. Acredita-se que sua disseminação pela Península Ibérica tenha ocorrido com a chegada dos romanos. Essa perspectiva histórica sugere que a linha entre "nativo" e "invasor" pode ser mais tênue do que se imagina, com a espécie demonstrando uma habilidade intrínseca de colonizar novos ambientes.
O Futuro do Gamo na Argentina
Embora o gamo argentino ainda seja classificado como invasor, sua longa presença e adaptação levantam questões sobre a sustentabilidade de seu controle a longo prazo. A introdução de espécies exóticas, mesmo com intenções iniciais benignas, pode desencadear transformações ambientais significativas. A experiência argentina com o gamo, assim como outros casos notórios como o dos castores em Terra do Fogo, reforça a necessidade de uma avaliação rigorosa e contínua dos impactos ecológicos de espécies introduzidas. O que fazer para mitigar os danos e gerenciar essa população em expansão é uma questão que demanda atenção urgente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka



