A discussão sobre o colonialismo europeu voltou a ser um tema central em debates acadêmicos e na esfera pública, mas a forma como ele é abordado hoje é um equívoco, segundo Thomas R. Wells, filósofo que leciona nos Países Baixos. Em um artigo publicado no 3 Quarks Daily, Wells argumenta que a fixação excessiva no passado colonial, impulsionada pelo que ele chama de "política da piedade", distorce a compreensão das relações globais e da história econômica.

A "política da piedade" transforma a compaixão em um mecanismo de autovalidação, onde a identificação de vítimas e perpetradores se torna um jogo de poder moral. Nesse cenário, países pobres são relegados ao papel de vítimas perpétuas, isentas de responsabilidade por suas próprias ações, enquanto países ricos são vistos como os únicos agentes morais, responsáveis tanto por crimes passados quanto pelos problemas atuais. Essa dicotomia, segundo Wells, apaga a agência política e moral de líderes e populações em países antes colonizados, que são frequentemente julgados por lentes causais, buscando explicações externas para seus próprios erros, em vez de avaliações morais diretas.

A Agência Negada e a Responsabilidade Ampliada

Wells aponta que essa perspectiva transfere toda a agência moral para os "colonizadores" ricos. Não apenas eles carregam a culpa por suas ações históricas, mas também se tornam responsáveis por falhas de governos independentes há décadas. Mais problemático, essa visão implica que nações ricas devem ativamente "consertar" as consequências do colonialismo, o que, paradoxalmente, pode levar a uma renovação de intervenção externa, algo que os críticos do colonialismo supostamente se opõem. O filósofo compara essa atitude a um narcisismo histórico, reminiscente das próprias justificativas que tornaram o colonialismo aceitável em primeiro lugar. A leitura aqui é que essa abordagem não apenas falha em gerar progresso, mas pode perpetuar um ciclo de dependência e julgamento moral superficial.

O Mito do Colonialismo como Motor da Riqueza Ocidental

A tese de que o colonialismo é a causa da desigualdade global é sustentada por argumentos econômicos simplistas. A constatação de que países europeus saquearam recursos e que muitas ex-colônias permanecem pobres enquanto antigas metrópoles são ricas leva à conclusão de que a riqueza ocidental foi construída às custas da pobreza alheia. Wells refuta essa visão, argumentando que ela ignora o crescimento econômico global massivo nos últimos séculos, que não pode ser explicado por transferências de soma zero. O verdadeiro enigma econômico, para ele, não é por que alguns países são pobres, mas como a maioria deles conseguiu escapar da pobreza extrema que caracterizou a história humana. A resposta, desde Adam Smith, é o capitalismo, não o colonialismo.

Capitalismo vs. Colonialismo na Construção de Riqueza

Enquanto o colonialismo pode gerar riqueza para indivíduos inescrupulosos através da transferência forçada de recursos, ele não tem a capacidade de enriquecer países inteiros de forma sustentável. A produção de bens e serviços não aumenta simplesmente pela movimentação de ouro. O capitalismo, por outro lado, é um sistema de soma positiva que gera riqueza através do aumento da eficiência, da alocação otimizada de recursos e do desenvolvimento tecnológico. Países que adotaram e aprimoraram o capitalismo, como a Grã-Bretanha, enriqueceram mais rapidamente do que aqueles que o fizeram de forma menos eficaz, independentemente do tamanho de seus impérios. Wells argumenta que, economicamente, o colonialismo foi um fardo custoso e ineficiente, e que os países ricos teriam prosperado ainda mais sem ele.

Além da Culpa: Instituições e o Futuro

Embora o colonialismo tenha, de fato, devastado instituições em muitas sociedades, prejudicando sua capacidade de prosperar, atribuir a pobreza e a falta de liberdade atuais unicamente a ele é um erro de argumentação. A mera constatação de que colonizadores quebraram o que existia não prova que as instituições pré-coloniais eram superiores ou que teriam evoluído para melhor. Uma análise rigorosa exigiria considerar se a influência colonial, em alguns casos, não representou um avanço institucional. A fixação na culpa colonial, segundo Wells, deriva de um erro de causalidade, onde dois eventos negativos (colonialismo e pobreza global) são automaticamente ligados como causa e efeito sem evidências suficientes. É possível que o colonialismo tenha sido um mal e que muitas ex-colônias ainda sofram, sem que o primeiro seja a causa direta da pobreza e da falta de liberdade contemporâneas.

A leitura aqui é que focar excessivamente no colonialismo como a raiz de todos os males globais impede um entendimento mais matizado das complexidades econômicas e políticas atuais. Essa perspectiva simplista obscurece os mecanismos do capitalismo e a agência dos atores nos países em desenvolvimento, limitando o debate a um ciclo de culpa e vitimização. A questão central para o futuro é como as nações podem construir instituições resilientes e prosperar, independentemente de seu passado colonial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · 3 Quarks Daily