A chilena Magnar, uma legaltech com apenas 14 meses de vida, anunciou o início de sua operação brasileira com o respaldo de uma rodada Série A de US$ 8 milhões. O aporte foi liderado pela britânica 6 Degrees Capital e pela mexicana Hi Ventures, e tem como objetivo principal financiar a expansão da startup para o Brasil e o México.

A movimentação insere a Magnar em um dos campos mais disputados da tecnologia latino-americana: o de inteligência artificial para o setor jurídico. A empresa chega a um mercado já aquecido, onde competirá com o unicórnio Enter, que recentemente levantou R$ 500 milhões, a Inspira, capitalizada pela Vivo Ventures, e a gigante Jusbrasil com sua própria solução de IA. A tese da Magnar é que seu modelo de negócio, focado em ser um "sistema operacional" completo e não apenas mais um assistente, lhe dará uma vantagem competitiva.

Um sistema operacional, não um assistente

O diferencial da Magnar, fundada pelos engenheiros de computação Andrés Arellano, Andrés Rodríguez e Nicolás Vergara, reside na abrangência de sua plataforma. Em vez de se concentrar em uma única funcionalidade, a startup oferece uma solução integrada que inclui pesquisa, redação, comparação de documentos e gestão de contratos, conectada a ferramentas como Word e Outlook. A base tecnológica é agnóstica, utilizando modelos de IA da OpenAI, Anthropic e Google sobre uma base de dados proprietária de legislação e jurisprudência, que a empresa coleta e processa em cada país.

Outro pilar estratégico é a aliança com seus próprios clientes. Nos mercados onde já atua — Chile, Peru e Colômbia —, a Magnar trouxe grandes escritórios de advocacia como investidores minoritários após se tornarem usuários da plataforma. Segundo a empresa, a prática valida o produto e cria um canal direto de feedback. A leitura é que este modelo transforma clientes em parceiros de distribuição e fiadores da tecnologia, um diferencial difícil de replicar. A Magnar pretende repetir a fórmula no Brasil, convidando bancas locais para participarem do investimento.

A batalha pelo Brasil

A urgência em desembarcar no país, segundo o CEO Andrés Arellano, é uma resposta direta à intensidade da concorrência. Além dos players locais, gigantes globais como Harvey e Legora, com valuations bilionários, já miram os grandes escritórios brasileiros. A estratégia da Magnar para enfrentar esse cenário é combinar agilidade, com uma estrutura enxuta, e profundidade, ao focar majoritariamente em escritórios de advocacia, que representam 75% de sua base de clientes.

As metas para o Brasil são inicialmente conservadoras: a empresa projeta alcançar 5 mil advogados cadastrados até o fim de 2026 e 75 mil até o fim de 2027. Contudo, a expectativa é que o país se torne seu principal mercado, respondendo por 35% da receita e do número de usuários. O capital recém-captado será direcionado principalmente para a coleta e processamento de dados jurídicos brasileiros, um investimento pesado e necessário para treinar seus modelos de IA para a realidade local.

A aposta da Magnar não é apenas tecnológica. É uma aposta de que um produto focado, aliado a uma estratégia de distribuição inteligente via parcerias societárias, pode ser mais eficaz do que simplesmente injetar mais capital em um mercado já saturado de soluções pontuais. O desafio será provar que essa profundidade regional pode superar a escala dos concorrentes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Startups