A relação entre Gianni Infantino, presidente da FIFA, e o presidente Donald Trump atingiu um novo patamar de visibilidade pública e influência direta. Com a Copa do Mundo de 2026 ocorrendo nos Estados Unidos, México e Canadá, a estratégia de Infantino tem sido marcada por uma aproximação ostensiva com o governo americano, que inclui desde a criação de um controverso Prêmio da Paz da FIFA — entregue ao próprio Trump — até a abertura de um hub operacional da entidade em Miami, cidade onde o dirigente reside.

Segundo reportagem do The New York Times, essa dinâmica reflete uma mudança estrutural na forma como a FIFA opera sob a gestão de Infantino. O que antes era uma organização centrada em Zurique e focada em burocracia esportiva, agora adota uma lógica transacional, buscando alinhamento político com figuras de poder para garantir estabilidade e abrir novas frentes de exploração comercial, em um processo que observadores têm descrito como a "trumpificação" da governança do futebol.

A estratégia de reabilitação e o modelo transacional

Ao assumir a presidência em 2016, Infantino herdou uma entidade fragilizada por escândalos de corrupção investigados pelo Departamento de Justiça dos EUA. O objetivo central de sua gestão foi, desde o início, restaurar a reputação da FIFA perante as autoridades americanas. Para isso, Infantino buscou transformar a entidade em um parceiro estratégico dos EUA, utilizando o acesso político para mitigar riscos regulatórios e construir uma imagem de conformidade que, ironicamente, se apoia na proximidade com o estilo de gestão de Trump.

Essa abordagem não se limita a questões diplomáticas. A FIFA, sob o comando atual, tem explorado modelos de negócio que ecoam as práticas da família Trump, incluindo o licenciamento de marcas para hotéis e a exploração de ativos digitais, como criptomoedas. A tentativa de criar um serviço de streaming próprio, discutida com o ex-secretário do Tesouro Steven Mnuchin, ilustra como a linha entre a gestão esportiva e a ambição de negócios transacionais se tornou cada vez mais tênue.

Mecanismos de influência e o risco da politização

O mecanismo de atuação de Infantino baseia-se na ideia de que a proximidade com o poder executivo é a chave para o sucesso operacional. Ao acompanhar Trump em viagens oficiais e marcar presença em eventos de alto nível, o presidente da FIFA eleva o seu próprio perfil e o da organização. No entanto, essa estratégia gera tensões internas consideráveis. Dirigentes do futebol global têm manifestado preocupação com a perda da neutralidade política, um pilar fundamental da entidade que agora parece submetido aos interesses de um único governo.

O caso do Prêmio da Paz da FIFA é emblemático desse conflito. Ao conceder a honraria a Trump após a irritação do presidente com a entrega do Nobel da Paz a María Corina Machado, a FIFA foi acusada de agir de forma partidária. Esse movimento não apenas constrangeu parte do corpo diretivo, mas também levantou questões éticas sobre a independência da organização, transformando uma ferramenta de soft power esportivo em um instrumento de bajulação política direta.

Implicações para o ecossistema do futebol

As implicações dessa postura ultrapassam o ciclo do atual governo americano. A preocupação de stakeholders é que a lógica transacional substitua a corrupção sistêmica do passado por um novo tipo de risco, onde a governança é ditada por favores e alianças pessoais. Para os países que sediam o torneio, a imprevisibilidade de Trump continua sendo um desafio logístico, com episódios de restrições de vistos e dificuldades burocráticas que colocam em xeque a autonomia da FIFA diante de decisões soberanas dos Estados Unidos.

Para o mercado global, a questão é se a FIFA conseguirá manter sua autoridade sobre as federações nacionais enquanto se alinha tão estreitamente a uma agenda política específica. A pressão interna, manifestada em denúncias formais à área de ética, sugere que há uma resistência crescente a esse modelo. O sucesso do torneio em 2026 será o teste definitivo para a eficácia dessa aposta de Infantino, que coloca a imagem da instituição em um caminho de difícil retorno.

O futuro da gestão sob a sombra da Casa Branca

O que permanece incerto é como a FIFA irá gerir o legado dessa aproximação após o término do mandato atual e da Copa do Mundo. A estrutura de poder que Infantino construiu depende fortemente de relações interpessoais e de um alinhamento volátil com a política americana.

Observadores do mercado esportivo devem monitorar se a FIFA manterá a estrutura de hub em Miami e se os projetos de licenciamento de marca e ativos digitais ganharão escala ou se serão abandonados caso a dinâmica política em Washington mude novamente. O futuro da entidade parece, por ora, indissociável da trajetória de seus aliados políticos mais influentes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney