A estratégia da administração Trump contra a energia renovável ganhou um novo e custoso capítulo. O governo americano fechou um acordo de US$ 1,2 bilhão com a empresa de energia RWE para que ela abandone seus projetos de parques eólicos offshore nas costas de Nova York, Califórnia e Louisiana. Com este, o valor total gasto para comprar de volta e cancelar licenças de energia eólica já se aproxima de US$ 4 bilhões, segundo reportagem da Associated Press veiculada pela Fortune.
O movimento não é um fato isolado, mas uma política deliberada. Após tentativas de barrar o desenvolvimento da energia eólica por meio de decretos executivos serem frustradas em cortes federais, a Casa Branca adotou uma tática de mercado: usar dinheiro público para incentivar empresas a desistirem de seus investimentos em energia limpa. Para a RWE, que não possui mais licenças eólicas nos EUA, o acordo veio acompanhado do anúncio de um investimento de US$ 900 milhões em um projeto de gás natural liquefeito.
Comprando o retrocesso
O mecanismo criado pela administração Trump representa uma forma peculiar de política industrial. Em vez de subsidiar um setor, o governo está efetivamente pagando para desmantelá-lo. Acordos anteriores seguiram a mesma lógica: a francesa TotalEnergies recebeu quase US$ 1 bilhão, e outras empresas como Golden State Wind e Invenergy também foram reembolsadas, com a condição de reinvestir valores equivalentes em combustíveis fósseis.
Na prática, o governo está convertendo investimentos privados em energia limpa em novos projetos de gás natural, usando o próprio caixa das empresas como veículo. Para o Secretário do Interior, Doug Burgum, a medida visa construir um sistema de energia baseado no "senso comum" e em tecnologias que garantam a segurança energética. A leitura crítica, no entanto, aponta para uma intervenção que distorce o mercado para beneficiar a indústria de combustíveis fósseis, alinhada aos interesses políticos do presidente.
A conta política e legal
A estratégia de acordos bilionários está longe de ser consensual e já enfrenta resistência. O senador democrata Sheldon Whitehouse classificou a manobra como um "golpe" e um suborno para que as empresas se afastem da energia limpa, transferindo custos para os consumidores e beneficiando doadores da indústria de combustíveis fósseis. A reação não se limita ao Capitólio. Estados como a Califórnia, que perderiam projetos estratégicos, já anunciaram a intenção de processar o governo federal.
Paralelamente, grupos de energia renovável obtiveram uma vitória judicial em outra frente, forçando o Departamento de Defesa a retomar as análises de segurança para novos parques eólicos em terra. A disputa expõe a tensão fundamental entre a agenda da Casa Branca e os compromissos estaduais e corporativos com a transição energética.
O resultado das batalhas legais que se avizinham será decisivo para definir os limites do poder executivo na condução da política energética do país. A questão central é se fundos públicos podem ser usados não para construir, mas para ativamente desmontar uma indústria inteira em favor de outra.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





