Chris Hulatt tinha apenas 23 anos quando concluiu que a estrutura corporativa tradicional não era para ele. Após dois anos e meio no programa de trainees da Mercury Asset Management, ele decidiu abandonar a segurança de um emprego estável para fundar, ao lado de Simon Rogerson e Guy Myles, a Octopus Investments. A decisão, tomada na virada do milênio, foi recebida com ceticismo absoluto por seus pares e ex-colegas.

Sem um plano de negócios robusto ou investidores institucionais, o trio contava apenas com US$ 25 mil das economias de Hulatt e uma determinação que descrevem como o “gene do Exterminador”. A ideia, considerada imprudente na época, era lançar uma gestora de fundos própria. Hoje, a Octopus Investments administra mais de US$ 13,2 bilhões, com um foco estratégico em investimentos que visam o combate às mudanças climáticas e a redução da desigualdade.

O início na sala de estar

O sucesso atual da Octopus Group, que hoje engloba divisões como a gigante Octopus Energy, mascara um começo marcado pela precariedade. Sem salários fixos, os fundadores estabeleceram um escritório improvisado na sala do apartamento de Hulatt em Londres. O equipamento de trabalho resumia-se a uma lista telefônica, um telefone fixo compartilhado e um laptop antigo.

O ano de 2000 foi dedicado a um esforço exaustivo de prospecção. Os fundadores ligavam para milhares de contatos tentando convencer investidores sobre o potencial de uma gestora desconhecida. A resistência do mercado financeiro era palpável, com relatos de potenciais investidores que chegavam a destruir o plano de negócios da startup em trituradoras de papel durante as chamadas telefônicas.

A persistência como motor de crescimento

O mecanismo por trás da sobrevivência da Octopus não foi uma inovação tecnológica disruptiva ou um golpe de sorte, mas uma resiliência operacional extrema. Após meses de negativas, o trio conseguiu convencer 85 investidores a injetar cerca de US$ 2 milhões no negócio até o final do primeiro ano. Esse capital inicial foi o ponto de inflexão necessário para validar a tese da empresa.

A cultura interna da Octopus, centrada na persistência, tornou-se o diferencial competitivo. Para Hulatt, o “gene do Exterminador” é a capacidade de ignorar o desânimo imediato em busca de resultados de longo prazo. Essa dinâmica de incentivos permitiu que a organização crescesse organicamente, distanciando-se do modelo de fundos tradicionais que priorizavam apenas o retorno financeiro imediato em vez de impacto social.

Implicações para o mercado financeiro

A ascensão da Octopus Group ilustra uma mudança significativa no apetite dos investidores por ativos com viés ESG. Atualmente, mais de 70% dos fundos geridos pela empresa possuem metas voltadas para a melhoria da qualidade de vida e sustentabilidade. Esse movimento força concorrentes tradicionais a repensar suas alocações de capital para não perder relevância em um mercado que exige transparência e propósito.

Para o ecossistema brasileiro, a trajetória da Octopus serve como um estudo de caso sobre a importância da resiliência em fases de captação de recursos. O mercado de venture capital e gestão de ativos no Brasil, frequentemente pautado por conexões e pedigree acadêmico, encontra na história de Hulatt um contraponto: a validação de que a execução persistente pode superar a falta de capital inicial ou de conexões prévias no setor financeiro.

O futuro da gestão de ativos

Embora o grupo tenha atingido uma escala massiva, com 14 mil funcionários e 11,3 milhões de clientes, o desafio permanece em manter a agilidade que permitiu sua fundação. A transição de uma startup para um conglomerado multissetorial exige uma gestão que equilibre a cultura original de persistência com a necessidade de governança corporativa rigorosa.

A questão que fica para o mercado é se o modelo de negócio da Octopus, construído sobre a premissa de um propósito social, continuará a entregar retornos financeiros superiores à medida que a empresa enfrenta a escala global. A observação constante de como a empresa integra novos mercados e tecnologias, especialmente no setor de energia, será um indicador do sucesso dessa estratégia a longo prazo.

A história de Hulatt e seus sócios permanece como um lembrete de que, por trás de grandes cifras e impérios corporativos, muitas vezes existe uma série de rejeições iniciais superadas pela obstinação. O mercado financeiro, embora movido por números e análises, ainda é profundamente moldado pela capacidade humana de insistir onde outros desistiram.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune