A resiliência de sistemas ancestrais foi posta à prova em março, quando tempestades severas atingiram o Havaí, causando inundações generalizadas em O‘ahu. Enquanto a infraestrutura moderna enfrentava danos, o antigo sistema de aquicultura de He‘eia, restaurado ao longo de 26 anos pela organização Paepae o He‘eia, permaneceu intacto. Segundo reportagem da Outside Online, o sucesso na preservação do ecossistema reflete o trabalho comunitário de décadas para reverter o abandono de um sistema de 600 anos, que hoje serve como um contraponto à dependência externa do arquipélago.
Atualmente, cerca de 90% dos alimentos consumidos no Havaí são importados, uma realidade que torna a segurança alimentar local precária. A restauração liderada por Hi‘ilei Kawelo e outros ativistas não busca apenas o aumento da produção, mas a reconexão com o conceito de 'ahupua‘a', a divisão tradicional de terra que integra montanhas e mar de forma sustentável. A tese central é que a saúde desses ecossistemas é o espelho da viabilidade da própria comunidade.
A reconstrução da infraestrutura ancestral
O projeto de He‘eia é um caso emblemático de recuperação ambiental. O que era um local tomado por manguezais invasores e sedimentação foi transformado novamente em um complexo produtivo. A remoção manual da vegetação e a restauração de 1,3 milha de muros de pedra, construídos sem argamassa seguindo técnicas havaianas, permitiram o retorno de espécies nativas como o 'ama‘ama' e o 'awa'.
Essa abordagem de restauração vai além da oferta de peixes. Ao limpar as águas, o projeto beneficia diretamente a saúde dos recifes adjacentes na Baía de Kane‘ohe. Para os envolvidos, a aquicultura tradicional oferece uma forma de extração responsável que não apenas alimenta a população, mas regenera o ambiente, um contraste direto com os modelos industriais de produção de alimentos.
O retorno das culturas tradicionais
Além do mar, a terra também passa por um processo de redescoberta. Manulani Aluli Meyer, educadora havaiana, lidera a iniciativa 'Niu Now!', focada na revitalização do coqueiro, que passou de fonte vital de alimento a um item ornamental negligenciado. Com o apoio de especialistas, o projeto promove o plantio de diversas variedades de coqueiros, restaurando o uso de subprodutos da planta para mulch e fibras, reforçando a autonomia alimentar.
O cultivo de 'kalo' (taro) segue a mesma lógica de resgate cultural e prático. A organização Ho‘okua‘aina, liderada por Dean e Michele Wilhelm, utiliza o cultivo dessa planta sagrada para a cultura havaiana como ferramenta de transformação social. Com a produção anual de 30 mil libras de kalo, a entidade demonstra que o retorno às práticas ancestrais é um motor de desenvolvimento comunitário.
Implicações para a resiliência local
O esforço de grupos como o Ho‘okua‘aina visa criar centros de resiliência capazes de fornecer suprimentos em situações de crise climática. A expansão da área de cultivo para 116 acres resgatados de empreendimentos imobiliários aponta para uma estratégia de ocupação do solo que prioriza a segurança alimentar em detrimento da especulação.
Essa transição para sistemas agroflorestais, integrando frutas como 'ulu' e outras espécies, estabelece um modelo de produção que pode servir de referência para outras regiões insulares. A conexão entre a produção de alimentos e o bem-estar social, baseada no princípio de 'aloha ‘aina' (amor à terra), torna-se um pilar estratégico para a estabilidade econômica dessas comunidades diante de um cenário global de incertezas.
Desafios e perspectivas futuras
Embora os resultados sejam promissores, a escala necessária para reverter a dependência de 90% das importações permanece como um desafio monumental. A integração entre o conhecimento tradicional e as necessidades da economia moderna exige um equilíbrio constante entre preservação e produtividade.
Observar como essas iniciativas escalarão sem perder a essência comunitária será fundamental nos próximos anos. A capacidade dessas organizações de influenciar políticas públicas e inspirar novas gerações definirá se o modelo havaiano de resiliência poderá ser replicado em outros contextos geográficos.
O sucesso desses projetos sugere que a soberania alimentar pode estar, muitas vezes, nas soluções que foram deixadas de lado no passado, mas que mantêm sua eficácia estrutural e cultural para o futuro. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Outside Online — Health & Fitness





