A cidade espanhola de Logroño tornou-se, entre 18 e 23 de junho de 2026, o epicentro de uma das mais ambiciosas experiências de urbanismo performativo na Europa. O festival Concéntrico, reconhecido como um laboratório de arquitetura e design, inaugurou seu cronograma de atividades ocupando praças, terrenos baldios, pontes e ruas emblemáticas com um conjunto de 24 intervenções espalhadas pelo tecido urbano.
O evento propõe uma ruptura com a forma tradicional de se consumir a arquitetura, ao integrar práticas coletivas e performativas ao cotidiano dos moradores. Segundo informações divulgadas pelo ArchDaily, a programação deste ano abrange desde estruturas circenses assinadas pelo arquiteto Smiljan Radić até a produção de registros sonoros urbanos para um álbum em vinil, consolidando o festival como um espaço de experimentação multidisciplinar.
A arquitetura como laboratório de convivência
O Concéntrico se diferencia de mostras convencionais por priorizar a efemeridade e a transformação do espaço público como ferramentas de reflexão. Ao convidar práticas internacionais para intervir em áreas subutilizadas, o festival desafia os limites do planejamento urbano tradicional, propondo que a cidade seja lida como um organismo vivo, capaz de ser reconfigurado por meio do design.
Historicamente, o festival tem sido um catalisador para o debate sobre a ressignificação de espaços negligenciados. A escolha de locais como terrenos baldios e pontes não é aleatória; ela busca forçar o habitante a enxergar o potencial latente de áreas que, sob a ótica do mercado imobiliário ou da gestão pública convencional, seriam consideradas espaços mortos ou de transição.
O papel da performance na ocupação urbana
Um dos pilares desta edição é a integração entre a estrutura física e a prática performativa. A presença de um circo desenhado por Smiljan Radić ilustra essa intenção de criar pontos de encontro que transcendem a função habitacional ou comercial da arquitetura. O design, aqui, atua como mediador da experiência humana, incentivando a apropriação do espaço público por meio do lúdico.
Além disso, a colaboração com a Sounds of Architecture Records para a criação de um vinil com sons das ruas reforça a ideia de que a arquitetura também deve ser ouvida e sentida. Essa abordagem sensorial sugere que a identidade de uma cidade não reside apenas em suas fachadas, mas na camada sonora e comportamental que se sobrepõe ao concreto durante o período de ocupação artística.
Tensões entre o efêmero e o permanente
O debate central que o Concéntrico levanta para urbanistas e gestores públicos gira em torno da utilidade do efêmero. Ao propor intervenções que duram apenas seis dias, o festival questiona se a transformação duradoura da cidade depende necessariamente de obras de grande escala e alto custo, ou se a ocupação temporária pode servir como um protótipo para políticas públicas de longo prazo.
Para os stakeholders envolvidos, o desafio reside em transpor o sucesso dessas intervenções pontuais para o planejamento estrutural da cidade. A conexão com o ecossistema brasileiro, por exemplo, pode ser vista através do interesse crescente em urbanismo tático, onde intervenções rápidas e de baixo custo têm sido utilizadas para testar novas formas de mobilidade e convivência em metrópoles como São Paulo e Curitiba.
O futuro do urbanismo experimental
O que permanece em aberto após o encerramento das atividades é o impacto real dessas intervenções no comportamento dos cidadãos de Logroño a longo prazo. A pergunta que se impõe é se a experimentação urbana, quando isolada em festivais, corre o risco de se tornar um evento de nicho, ou se ela consegue, de fato, influenciar as diretrizes de desenvolvimento da cidade nos anos subsequentes.
O monitoramento do legado dessas 24 instalações será fundamental para entender como o Concéntrico evoluirá. Observar a receptividade da população local a essas mudanças temporárias poderá indicar se este modelo de laboratório urbano é replicável em contextos mais densos ou se a sua eficácia depende intrinsecamente da escala e do ritmo de cidades de porte médio como Logroño.
O desdobramento das atividades nos próximos dias oferecerá um panorama mais claro sobre como essas propostas internacionais dialogam com as necessidades específicas do tecido urbano espanhol, abrindo caminhos para novas discussões sobre o papel do design na construção de cidades mais inclusivas e participativas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ArchDaily





