O cenário de recrutamento para conselhos de administração está mudando. Em vez de buscar a experiência consolidada de executivos aposentados ou que deixaram seus cargos operacionais, as empresas agora priorizam profissionais que estão ativamente envolvidos no C-suite e lidando com os desafios do mercado em tempo real. Essa nova dinâmica, segundo executivos de empresas como Heidrick & Struggles, TwinPoint Collective e Logitech, sinaliza uma preferência por perfis que possam oferecer insights contemporâneos e agilidade frente a um ambiente de negócios em constante evolução.

A Nova Busca por Atualidade

A tendência é clara: conselhos de administração estão cada vez mais relutantes em recrutar membros que já se aposentaram ou deixaram seus cargos executivos de tempo integral. A justificativa reside na necessidade de manter a agilidade e a relevância em um mundo corporativo marcado por rápidas mudanças tecnológicas e de mercado. Hanneke Faber, CEO da Logitech, enfatiza que a atualidade é um fator crucial para a composição de um conselho. "Estamos buscando pessoas que estejam atualizadas, que estejam lidando com alguns desses problemas em seu trabalho diário", afirmou Faber. Essa perspectiva sugere que a experiência, por si só, pode não ser suficiente se não estiver acompanhada de uma vivência recente e direta com as complexidades do mercado atual. A busca por CEOs e CFOs, mencionada por Faber, reflete essa necessidade de lideranças com visão de futuro e capacidade de adaptação imediata.

O Impacto na Diversidade e Experiência

Essa mudança de paradigma levanta questões importantes sobre diversidade e inclusão em conselhos. Merline Saintil, cofundadora da Black Women on Boards, observa que as colocações de mulheres em conselhos caíram 33% no último ano, em parte porque as empresas buscam perfis específicos, como CEOs e CFOs, áreas onde as mulheres ainda são sub-representadas. A ênfase em títulos executivos de ponta pode inadvertidamente excluir talentos valiosos que, embora experientes, não ocuparam essas posições de topo ou já deixaram o mercado. A ideia de construir um "portfólio de conselhos" após a saída de um cargo operacional, antes vista como uma transição natural para muitos executivos experientes, agora enfrenta ceticismo. A preocupação é que essa abordagem possa levar a uma homogeneização de perfis, priorizando a vivência corporativa recente em detrimento de uma diversidade mais ampla de experiências e perspectivas.

Rede de Contatos como Diferencial

Diante desse cenário, a construção e o uso de redes de contatos tornam-se ainda mais instrumentais para a obtenção de assentos em conselhos. Annie Young-Scrivner, cofundadora e CEO da TwinPoint Collective, ressalta a importância de "tocar nessa rede" para identificar oportunidades. Conferências e eventos do setor são vistos como plataformas cruciais para ampliar o alcance e a conectividade, permitindo que profissionais se mantenham visíveis e construam relacionamentos que podem ser decisivos na hora da seleção. Para aqueles fora dos círculos C-suite mais tradicionais ou que já transitaram para uma fase de aposentadoria ativa, o networking contínuo e estratégico é a chave para não ficarem "do lado de fora do salão", como alertam os executivos.

Perguntas em Aberto para o Futuro

Ainda persistem dúvidas sobre como essa tendência afetará a longevidade e a diversidade de pensamento nos conselhos. Será que a busca incessante por perfis "atuais" pode levar à exclusão de talentos com visões de longo prazo ou experiências de gestão em contextos diferentes? E como as empresas garantirão a representatividade de grupos sub-representados, como mulheres e minorias, se os critérios de seleção se estreitarem para perfis C-suite específicos? A dinâmica atual sugere um desafio para quem busca uma cadeira em conselhos, exigindo um engajamento constante e uma estratégia de networking robusta para navegar em um mercado cada vez mais competitivo e focado na atualidade corporativa.

A busca por relevância e agilidade nos conselhos de administração redefine o caminho para a atuação em governança corporativa. A mensagem para os executivos é clara: manter-se ativo e conectado é fundamental para garantir um lugar à mesa. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune