A Copa do Mundo de 2026, embora seja um evento de escala global, enfrenta um cenário de ceticismo e baixa adesão popular nas cidades canadenses que atuarão como sedes. Enquanto Vancouver se prepara para receber sete partidas e Toronto, outras seis, uma parcela significativa da população local manifesta desinteresse direto pelo torneio. Segundo dados do instituto independente Angus Reid, a apatia é acompanhada por uma clara desaprovação em relação à viabilidade financeira do projeto para os cofres públicos.

O descontentamento não é apenas uma questão de preferência esportiva, mas um reflexo de preocupações estruturais. Em Toronto, 27% dos entrevistados declararam não ter interesse algum pela competição, enquanto em Vancouver esse índice chega a 23%, somado a uma parcela relevante que se diz pouco interessada. O sentimento predominante é de que os custos envolvidos superam qualquer benefício tangível para as comunidades locais.

O peso da conta pública

A resistência dos canadenses encontra justificativa nos números apresentados pelo Escritório Orçamentário Parlamentar. Estima-se que o custo combinado entre as esferas federal, provincial e municipal ultrapasse US$ 1 bilhão para cada sede, resultando em um gasto de aproximadamente US$ 82 milhões por partida. Embora o governo federal arque com uma parte expressiva desses valores, a fatia restante recai sobre as administrações locais, gerando um debate sobre a alocação de recursos públicos.

Essa dinâmica financeira alimenta a percepção de que o evento é deficitário para o cidadão comum. Em ambas as regiões, a grande maioria dos entrevistados — 70% na Grande Toronto e 72% em Vancouver — afirma que sediar o torneio provavelmente não vale a pena. A análise sugere que a percepção de valor está descolada das promessas de retorno econômico que geralmente acompanham grandes eventos esportivos.

A percepção sobre os beneficiários

Existe um consenso quase absoluto entre os moradores sobre quem realmente lucra com a realização da Copa. Cerca de 80% dos consultados em Toronto e 81% em Vancouver concordam que os principais favorecidos são a FIFA, patrocinadores e grandes corporações. Essa visão aponta para uma desconexão entre a narrativa oficial de legado para a cidade e a realidade vivida pela população, que enxerga o evento como uma operação voltada estritamente para o mercado privado.

Além do aspecto financeiro, a rotina urbana é um ponto de atrito. A necessidade de fechamento de ruas e a ocupação de espaços públicos são vistas como fontes de perturbação. Cerca de 68% dos entrevistados em Toronto e 69% em Vancouver classificam o impacto no dia a dia como negativo, reforçando a ideia de que o custo social do evento é superior aos ganhos de visibilidade ou turismo.

Tensões na gestão de grandes eventos

O cenário canadense reflete um desafio crescente para cidades que buscam sediar megaeventos esportivos na atualidade. A pressão por transparência fiscal e a necessidade de justificar investimentos bilionários em um contexto de inflação e restrições orçamentárias tornam a opinião pública um stakeholder crítico. O caso canadense serve como um termômetro para outras nações que avaliam propostas similares, onde o custo de oportunidade é cada vez mais questionado pela sociedade civil.

Para os reguladores e organizadores, o desafio é mitigar a percepção de que o evento é um ônus. A falta de engajamento popular, no entanto, coloca em xeque a sustentabilidade política de futuras candidaturas, forçando uma reavaliação sobre como os benefícios de eventos globais podem ser, de fato, distribuídos entre a população local.

O horizonte do torneio

O que permanece incerto é se a proximidade dos jogos alterará esse sentimento de rejeição ou se o descontentamento se transformará em protestos durante a competição. O monitoramento dessa percepção será fundamental para entender o impacto de longo prazo na relação entre os contribuintes e os grandes eventos internacionais.

A expectativa é observar como as autoridades locais gerenciarão o fluxo de visitantes e as interrupções urbanas, tentando reverter a imagem de um evento que, até o momento, parece alheio às prioridades dos moradores.

O debate sobre o custo-benefício de grandes eventos esportivos no Canadá está apenas começando a ganhar tração, e os resultados da pesquisa indicam que a narrativa oficial terá dificuldades em convencer uma população que se sente deixada de fora das vantagens financeiras.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney