No palco da vida, Coque Malla parece ter se desdobrado em múltiplos papéis, mas a essência do artista que fundou Os Ronaldos aos 15 anos permanece. Aquele adolescente que, com sucessos como "Adiós papá" e "Por las noches", ecoava a energia do rock espanhol, hoje se aventura em terrenos mais complexos, como a crítica social e a introspecção sobre a própria carreira. Sua participação em "A Ópera dos Três Vinténs", de Bertolt Brecht e Kurt Weill, um texto de 1928 que desnuda a corrupção, o abuso de poder e as falhas do capitalismo, surge como um sopro de ar fresco em meio a uma rotina que, segundo ele, começava a pesar. A ideia de interpretar Macheath, o protagonista, partiu do diretor Mario Vega, e para Malla, representou um convite irrecusável para sair do "bucle" repetitivo da vida de músico.

A decisão de abraçar um projeto teatral de tamanha envergadura, que o afastaria temporariamente das turnês e da promoção musical tradicional, foi também uma oportunidade de colaboração familiar, com seu irmão Miguel Malla assumindo a direção musical. "É como um sopro de ar fresco", descreve Malla, que se comprometeu com a peça por um ano e meio. O maior desafio, no entanto, não foi a atuação em si, mas a exigência vocal das composições de Weill, com suas melodias e giros tonais incomuns para o músico. "Há canções que alcançam tons muito altos", confessa, destacando a dificuldade enfrentada por ele e pela colega Paula Iwasaki, que lidava com os tons baixos.

"A Ópera dos Três Vinténs" é uma obra que, para Malla, transcende o tempo. A crítica ao abuso de poder, ele argumenta, é intrínseca à natureza humana e se manifesta em todas as épocas. A peça, contudo, vai além de um simples retrato do capitalismo predatório; ela expõe a ambiguidade moral de todos os personagens, sem exceção. "Não há maus nem bons, são todos uns filhos da puta que fazem o que seja com tal de sobreviver", afirma Malla. Essa visão sombria, mas realista, da condição humana, onde ambição e egoísmo prevalecem, é o que confere à obra seu caráter universal e atemporal, pintando um retrato cru de todos nós.

Em um mundo cada vez mais fragmentado e polarizado, Malla expressa um pessimismo cauteloso. Ele aponta para a "falta brutal de compreensão leitora" como um dos males que afligem a sociedade contemporânea, especialmente no contexto das redes sociais. "A gente não sabe ler e não entende o que está lendo", lamenta. Essa dificuldade de interpretação, aliada a um clima político "patético" e a "artimanhas" que envergonham, contribui para um cenário de profunda desconfiança. O músico, que já se aventurou em polêmicas nas redes, confessa ter cometido o "erro" de se envolver em discussões online, mas hoje se distancia delas, restringindo o acesso de sua própria filha a essas plataformas até a maioridade, em uma tentativa de preservar sua formação.

"A Ópera dos Três Vinténs" não é apenas uma peça; é um espelho. Um espelho que reflete as complexidades, as contradições e as falhas inerentes à experiência humana. Coque Malla, ao dar vida a Macheath, não apenas revisita sua própria jornada artística, mas também nos convida a confrontar a natureza intrínseca do poder, da ambição e do egoísmo que, para o bem ou para o mal, moldam quem somos. A arte, em sua forma mais pura, continua a ser o veículo para essa reflexão incômoda, mas necessária. O que resta, então, é a pergunta: até onde a humanidade está disposta a olhar para si mesma?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España