A Corsan, empresa de saneamento básico controlada pela Aegea, anunciou a captação de R$ 700 milhões através do programa Eco Invest, uma iniciativa do Tesouro Nacional voltada para financiar projetos verdes. A operação, estruturada pelo Bradesco BBI, visa expandir os serviços de saneamento no Rio Grande do Sul e fortalecer a adaptação de suas infraestruturas às mudanças climáticas, especialmente após os impactos das enchentes de 2024. O programa Eco Invest funciona sob um modelo de finanças mistas (blended finance), onde o Tesouro Nacional oferece recursos a juros baixos (1% ao ano) para que bancos privados alavanchem esses fundos com capital particular, reduzindo o custo final para os projetos elegíveis.
Os recursos captados pela Corsan serão aplicados em duas frentes principais: melhorias de infraestrutura e adaptação climática, e crescimento urbano. A maior parte será destinada a ações de resiliência, como a elevação de estruturas críticas, construção de barreiras de proteção contra inundações e aquisição de geradores. O restante financiará a universalização dos serviços de água e esgoto, alinhado às metas do Marco Legal do Saneamento, que prevê 99% de acesso à água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033. A Aegea não divulgou a divisão exata dos recursos entre as duas frentes.
Adaptação Climática Pós-Enchentes
As enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024 demonstraram a vulnerabilidade das operações de saneamento. Dos 317 municípios atendidos pela Corsan, 236 foram afetados, com 67 sofrendo desabastecimento devido a danos severos em estações de captação e tratamento. A Aegea já havia reportado gastos de R$ 134,8 milhões na recuperação emergencial de estruturas e equipamentos. A nova captação permitirá investimentos estratégicos para mitigar riscos futuros, priorizando regiões com histórico de alagamentos e implementando soluções como o aumento da cota de equipamentos sensíveis e a construção de defesas físicas.
A estratégia de adaptação climática da Corsan, detalhada pela Aegea, foca em tornar os sistemas mais robustos contra eventos extremos. Medidas como a elevação de equipamentos e a construção de barreiras visam proteger a infraestrutura vital. A aquisição de geradores de energia é crucial para garantir a continuidade das operações, especialmente em cenários de interrupção do fornecimento elétrico, comum durante desastres naturais.
Universalização e Metas do Marco Legal
Paralelamente aos esforços de adaptação, os recursos também impulsionarão a expansão dos serviços para alcançar as metas de universalização do saneamento. A Corsan, que já atinge 99% de cobertura de água potável, precisa avançar significativamente na coleta e tratamento de esgoto, onde sua cobertura atual é de apenas 30%. O Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, estabelece prazos ambiciosos para que todas as empresas do setor elevem seus índices de cobertura. Desde a privatização em 2023, a Corsan tem acelerado a expansão de sua rede de esgoto, passando de 40 quilômetros por ano para uma média de 40 quilômetros por semana.
O programa Eco Invest, ao reduzir o custo do financiamento, torna-se uma ferramenta vital para antecipar ou ampliar o volume de investimentos necessários. A alta taxa de juros no Brasil historicamente impõe uma restrição à disponibilidade de capital para projetos de infraestrutura de longo prazo, tornando modelos como o blended finance ainda mais relevantes para destravar o potencial de crescimento e melhoria dos serviços.
Implicações para o Setor e Investidores
A captação da Corsan via Eco Invest sinaliza um caminho promissor para outras companhias de saneamento e infraestrutura que buscam financiamento para projetos de sustentabilidade e resiliência. O modelo de blended finance, ao atrair capital privado para projetos com subsídios públicos, demonstra a viabilidade de estruturar operações financeiras que atendam tanto a imperativos ambientais quanto a objetivos de expansão de negócios.
As agências de rating haviam rebaixado a Aegea em meio a atrasos na divulgação de balanços, o que gerou preocupações sobre alavancagem. No entanto, o Bradesco BBI, ao estruturar a operação, concentrou-se na análise de crédito da Corsan, identificando-a como um ativo maduro e com bom desempenho. Essa abordagem destaca a importância de avaliar a qualidade intrínseca dos projetos e das empresas subjacentes, em vez de se deter exclusivamente em preocupações corporativas mais amplas, especialmente em operações de financiamento estruturado.
O sucesso da Corsan em mobilizar R$ 700 milhões com condições favoráveis pode servir de precedente para outras companhias do setor. A contínua demanda por investimentos em saneamento e adaptação climática, aliada a mecanismos financeiros inovadores como o Eco Invest, sugere um futuro onde a sustentabilidade e a resiliência se tornam cada vez mais centrais nas estratégias de captação de recursos. Acompanhar a aplicação desses fundos e os resultados operacionais da Corsan nos próximos anos será fundamental para avaliar a eficácia deste modelo de financiamento.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Capital Reset





