O agronegócio brasileiro, responsável por cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa do país, é um pilar estratégico na agenda climática nacional. No entanto, o setor capta uma parcela ínfima do financiamento sustentável global, evidenciando uma lacuna significativa entre o potencial de projetos verdes e o capital disponível. Para reverter esse quadro, os economistas Winston Fritsch e Julieda Puig apresentaram o EcoA (Agregador de Ativos de Crédito Sustentável), uma iniciativa que visa estruturar e consolidar ativos de crédito rural pulverizado, tornando-os atraentes para investidores estrangeiros.

A proposta, apoiada pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), parte de um diagnóstico claro: o capital existe, assim como os projetos, mas faltam pontes de confiança e escala. "O investidor global, especialmente o europeu, tem mandato para investir em sustentabilidade, mas precisa achar pipeline de projetos [estruturado para os seus padrões]. E o Brasil continua fora desse mapa", explica Puig. As principais barreiras identificadas são a fragmentação na originação dos ativos, a ausência de padrões reconhecíveis por investidores globais e custos e prazos inadequados. Essas dificuldades se reforçam mutuamente, exigindo uma solução integrada.

Um Ecossistema de Financiamento Verde para o Agro

O EcoA funcionará como uma infraestrutura de mercado e uma plataforma "one-stop shop", conectando produtores rurais, cooperativas e instituições financeiras locais aos mercados globais de capital. A agregação de milhares de empréstimos dispersos em carteiras diversificadas é a chave para superar os altos custos de transação e auditoria que afastam investidores institucionais. O Fundo EcoA Agro (FEAgro), a ser constituído como FIDC no Brasil ou veículo no exterior, comprará tanto carteiras já originadas quanto novos créditos, liberando balanços de bancos e viabilizando novas operações.

A estrutura de capital do FEAgro adota o modelo de blended finance, combinando diferentes níveis de risco e retorno. Uma cota subordinada, destinada a "patrocinadores" como corporações da cadeia do agro, tradings e fundos soberanos, absorverá as primeiras perdas em troca de remuneração maior, atuando como um investidor âncora. As três cotas sêniores são direcionadas a diferentes tipos de investidores: a primeira para grandes institucionais domésticos e internacionais, desenhada para rating AAA; a segunda para o BNDES, com recursos do Fundo Clima; e a terceira para bancos multilaterais, via um Sustainability-Linked Loan-Financing Bond (SLLB). Este último exigirá metas rigorosas de sustentabilidade, alinhadas a padrões internacionais, para mitigar o risco de greenwashing.

Por que Começar pelo Agronegócio?

Embora o EcoA possa financiar diversos setores do Plano Clima, a escolha do agronegócio como piloto não é aleatória. O Plano Clima, ao apresentar suas Metas Nacionais Determinadas (NDCs) à ONU, gerou atritos com o setor produtivo devido à falta de contrapartidas financeiras e incentivos claros para a transição. A proposta do EcoA foi bem recebida por lideranças do agro, como Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, que vê no fundo uma solução para os desafios de financiamento da transição. "Faltam padronização e métricas, que o fundo pretende resolver", afirma Rodrigues.

A engenharia financeira proposta visa superar o receio cultural do produtor tradicional, que pode perceber tais mecanismos como "coisa para gigante". A intermediação por cooperativas de crédito e bancos cooperativos é vista como crucial para levar o crédito aos pequenos e médios produtores, construindo uma ponte de credibilidade. Essa abordagem busca garantir que os benefícios da transição sustentável cheguem a toda a cadeia produtiva, não apenas aos grandes players.

Riscos e Oportunidades no Cenário Atual

A iniciativa surge em um momento desafiador para o campo, marcado por mudanças climáticas, altos custos de insumos e endividamento elevado. O FEAgro não se propõe a ser um plano de resgate para empresas em crise, mas pode oferecer alívio a produtores e instituições financeiras com bons ativos que enfrentam sufoco de liquidez. A dependência da cota do BNDES, no entanto, introduz um risco político, uma vez que a continuidade do apoio do banco de desenvolvimento pode variar conforme as orientações do governo federal.

O sucesso do EcoA dependerá da sua capacidade de provar a viabilidade financeira e operacional, atraindo os "patrocinadores" necessários para a cota subordinada e demonstrando a robustez de suas métricas de sustentabilidade. A validação conceitual por parte de instituições como BNDES, BID Invest e Banco do Brasil é um passo importante, mas a etapa de detalhamento técnico e financeiro será determinante para que o fundo se torne uma realidade e impulsione a transição sustentável no agronegócio brasileiro e, futuramente, em outros setores. A meta de lançamento para o fim de 2027, com captação inicial de US$ 2 bilhões, sinaliza a ambição do projeto.

Com reportagem de Brazil Valley

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