O futuro do EM-DAT, o banco de dados mais abrangente do mundo sobre desastres naturais e tecnológicos, está em xeque. A estrutura, que serve como a memória global de eventos extremos, perdeu sua principal fonte de financiamento após a decisão da administração Trump de desmantelar a Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA (USAid), que respondia por 90% do orçamento do projeto. Segundo reportagem do Carbon Brief, a equipe responsável pelo banco, sediada na Universidade de Louvain, na Bélgica, recebeu a notificação do corte em fevereiro de 2025, colocando em risco três décadas de monitoramento contínuo.
A possível descontinuidade do EM-DAT levanta preocupações profundas na comunidade acadêmica e entre formuladores de políticas públicas. Com mais de 27 mil eventos catalogados, a base de dados não apenas quantifica mortes e danos econômicos, mas permite a análise de tendências históricas cruciais para a ciência climática. Diante da ameaça, mais de 4 mil acadêmicos assinaram uma carta aberta pedindo o socorro urgente de governos e instituições multilaterais para manter a operação, que exige cerca de 300 mil euros anuais.
O papel da memória climática
O EM-DAT atua como o registro de referência sobre como os eventos climáticos extremos impactam as sociedades. Desde 1988, a equipe do Centro de Pesquisa em Epidemiologia de Desastres (CRED) mantém a base de dados de forma independente, garantindo que as informações sobre inundações, ondas de calor e tempestades sejam verificadas e acessíveis gratuitamente. Para pesquisadores, o banco é mais do que uma lista estatística; é a memória de como o planeta está mudando em tempo real.
A neutralidade do financiamento original, provido pela USAid, permitiu que o EM-DAT se consolidasse como uma fonte confiável, livre de influências políticas diretas. A interrupção súbita desse fluxo financeiro compromete não apenas o histórico, mas a capacidade de continuidade de estudos que sustentam relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). A perda desse repositório representaria um retrocesso na compreensão dos riscos climáticos globais.
Mecanismos de dependência e risco
O modelo de financiamento do EM-DAT revela a fragilidade de infraestruturas de dados globais que dependem excessivamente de agências governamentais de uma única nação. Embora o custo operacional seja relativamente baixo para os padrões globais, a concentração de 90% do orçamento em um único doador criou um ponto único de falha. Quando a política externa dos EUA mudou, a estrutura de suporte foi removida sem um plano de transição imediato.
A dependência de fundos governamentais externos, embora tenha garantido a gratuidade do acesso por décadas, agora se mostra um risco estratégico. Cientistas envolvidos na causa defendem que a transição para um modelo de financiamento diversificado — envolvendo bancos de desenvolvimento e filantropia — é a única forma de garantir que o banco de dados sobreviva a futuras flutuações políticas, tornando-o menos suscetível a decisões unilaterais.
Implicações para o Sul Global
Para nações em desenvolvimento, a ausência do EM-DAT é particularmente crítica. Muitos países do Sul Global carecem de sistemas nacionais robustos de monitoramento, utilizando o banco de dados para embasar estratégias de mitigação e solicitar fundos internacionais. A falta de uma fonte padronizada de dados dificultaria a comparação de eventos entre diferentes regiões, prejudicando a formulação de políticas baseadas em evidências.
O impacto estende-se a iniciativas como o Quadro de Sendai para a Redução do Risco de Desastres. Sem uma base de dados centralizada e comparável, organizações como a União Africana teriam dificuldades em compilar relatórios continentais, resultando em dados fragmentados que impedem uma resposta coordenada e eficaz às mudanças do clima.
O futuro do monitoramento
Embora existam sinais positivos de interesse por parte de novos financiadores, a incerteza permanece. O desafio agora é transformar o interesse em compromissos financeiros concretos e de longo prazo. A comunidade científica observa atentamente se o EM-DAT conseguirá migrar para uma estrutura mais resiliente antes que a interrupção dos dados se torne irreversível.
O desfecho deste caso servirá como um teste para a resiliência da infraestrutura científica global em um cenário de crescente instabilidade política. A preservação desses dados não é apenas uma questão de conservação de registros, mas um requisito fundamental para a segurança climática das próximas décadas.
O desenlace desta crise definirá se o mundo conseguirá manter uma visão unificada sobre os impactos dos desastres extremos, ou se a memória coletiva sobre a crise climática será fragmentada por cortes orçamentários. A dependência de um único financiador provou ser um risco, mas a mobilização acadêmica em curso sugere que o valor do EM-DAT para a sociedade é reconhecido globalmente, ainda que o caminho para sua sustentabilidade financeira exija uma reestruturação profunda.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Carbon Brief





