Ondas de calor que assolam a Europa estão colocando em xeque um dos ícones da gastronomia italiana: o queijo Parmigiano Reggiano. Com temperaturas que superam os 40 graus na região da Emilia-Romagna, o berço do produto, as vacas produtoras de leite estão sofrendo. O estresse térmico as leva a comer menos e, consequentemente, a produzir até 10% menos leite, segundo reportagem do site espanhol Xataka.

O que parece um problema sazonal é, na verdade, um sintoma agudo da crise climática impactando uma cadeia de valor complexa e de alta precisão. A indústria do Parmigiano Reggiano, que movimenta cerca de €4,5 bilhões anuais, está vendo seu modelo de negócios, aperfeiçoado ao longo de séculos, ser testado por um fator incontrolável: o clima.

A cadeia de valor sob estresse

A crise não se limita à produção de leite. Para receber o selo de Denominação de Origem Protegida (DOP), o Parmigiano Reggiano autêntico exige que as vacas sejam alimentadas exclusivamente com pasto e feno cultivados na região delimitada. A seca severa, no entanto, impede o crescimento da forragem, criando um gargalo que ameaça a conformidade e a própria viabilidade da produção. Sem o pasto local, não há o leite correto e, portanto, não há o queijo.

Em paralelo, os custos operacionais disparam. Produtores rurais instalam ventiladores e nebulizadores de água para aliviar o calor do gado, elevando as contas de energia. O mesmo ocorre nos armazéns de maturação, onde as gigantescas rodas de queijo são estocadas. Manter a temperatura ideal de conservação já exige até 30% mais energia, pressionando as margens de um negócio que depende de escala e eficiência.

O dilema é profundo: a mesma rigidez que confere ao Parmigiano seu valor e prestígio — suas regras de origem e produção — é o que o torna extremamente vulnerável às mudanças climáticas. Adaptar-se pode significar flexibilizar as regras, mas isso poderia diluir a identidade do produto. A citação de um executivo do setor, registrada pela reportagem, é emblemática da angústia: "Não queremos ser a última geração a comê-lo". A frase encapsula a tensão entre preservar uma herança cultural e econômica e a necessidade de sobreviver a um novo normal climático.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka