Kevin Carlberg, um ex-diretor de pesquisa em inteligência artificial da Meta, acaba de levantar US$ 10,25 milhões para uma nova startup em modo “stealth” chamada Noosphere Labs. A rodada seed foi liderada pelo fundo Trilogy Equity Partners, com participação relevante da Madrona, uma das gestoras de venture capital mais tradicionais de Seattle. A informação foi confirmada pela própria empresa após um registro regulatório nos EUA, segundo reportagem do GeekWire.

A tese da Noosphere é desenvolver o que chama de “inteligência física centrada no ser humano”. A proposta, ainda que enigmática, aponta para uma fronteira além da atual febre de LLMs e geradores de imagem: uma IA projetada para ajudar pessoas a interagir e compreender o mundo físico, não apenas o conteúdo em telas.

A fronteira física da IA

Enquanto o epicentro da IA generativa se concentra em texto, código e imagens, a aposta de Carlberg é no que vem depois: a interação com a realidade. A “inteligência física” remete a aplicações em dispositivos como óculos inteligentes e outros 'wearables' capazes de interpretar o ambiente por meio de vídeo, áudio e sensores para oferecer assistência contextual, sem que o usuário precise pedir.

O currículo de Carlberg dá peso à ambição. Na Meta, ele liderou equipes de pesquisa no Reality Labs e no Fundamental AI Research (FAIR) focadas justamente em IA física e simulação para dispositivos de realidade virtual e mista. Antes disso, passou oito anos no Sandia National Laboratories, um dos principais centros de pesquisa do governo americano, desenvolvendo simulações de física em tempo real. Uma pesquisa de sua equipe apresentada na conferência NeurIPS no ano passado mostrou que os melhores modelos de IA para essa tarefa de assistência em 'wearables' ainda estão “longe da utilidade prática”, com uma taxa de acerto de apenas 55%.

O desafio pós-hype

O investimento na Noosphere sinaliza um movimento de capital de risco para teses de longo prazo que buscam resolver problemas fundamentalmente mais complexos que os da IA digital. O próprio nome da startup, que remete a um conceito filosófico de uma “esfera do pensamento humano”, sugere uma visão de computação ambiente e onipresente.

O desafio, no entanto, é monumental. Não se trata apenas de refinar algoritmos, mas de integrar hardware, software e uma coleta de dados massiva e estruturada sobre o mundo real — algo que o próprio Carlberg apontou como uma lacuna em sua pesquisa. A participação de VCs experientes valida a disposição do mercado em financiar projetos de altíssimo risco em troca de um potencial de retorno igualmente elevado, caso a tecnologia se prove viável.

A Noosphere Labs ainda é uma caixa-preta, mas sua missão representa uma questão central para a próxima década da tecnologia: como, e quando, a inteligência artificial deixará de ser uma ferramenta primariamente digital para se tornar uma camada de fato integrada ao nosso ambiente físico. Os US$ 10 milhões são apenas o sinal de partida para uma maratona tecnológica e científica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · GeekWire